a arte dá nos nervos

2008,agosto28,quinta-feira às 10:41PM | Publicado em crônica, critica-se | 7 Comentários
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“Nessuna cosa si può amare nè odiare, se prima non si há cognition de quella”
Leonardo da Vinci

O

que me dá nos nervos na arte e ao mesmo tempo me encanta é o modo como ela se disfarça de outras coisas dando uma atmosfera poética a estas coisas – a atmosfera poética é um estado de atenção amplificada, que torna os detalhes poéticos – a palavra poética em si já substitui todas as outras: a atmosfera melancólica é um estado depressivo que faz qualquer detalhe parecer triste e assim vai indo, e a possibilidade deste sistema lingüístico (ou mais que isso, sensorial) de percepção é que determina a poesia.
Há trabalhos de intervenção urbana performática que discorrem sobre passar perigo em ambientes urbanos: mas se passa muito menos perigo que qualquer praticamente médio de le parkon. O que em princípio diminuiria qualquer mérito do aventureiro artístico. Mas é na maneira como olha e como faz olhar (convidando) que mora a arte. Fazer conscientemente, falar da feitura fazendo, vivenciando, experimentando. É o que se recorta dali. Por isso alguns riscos em galerias valem tanto mais que outros muito mais numerosos e de “qualidade técnica” (aspas para relativizar) superior num esboço do Alex Ross. O erro está em quem se perde nesta avaliação (e até formandos em artes fazem isso) e analisa o material em si, quando em verdade ele é peça em favor de uma idéia.Peça porque se trata de uma equação, que como equações avançadas contam com referenciais. Às vezes são equações para provarem conjeturas. E às vezes a arte é a conjetura em si, os estros adivinhando possibilidades que a física quântica talvez burocratize.Mas as criações subjetivas que fiquem para as apreciações subjetivas, que aí se conversam na mesma língua, poderíamos dizer. Eu fiz uma interpretação de Paranoid Park e da relação deste filme com sua música, depois descobri que muitas combinações foram feitas ao acaso por Van Sant – mas a essência faz sentido, a obra se fecha, no sentido de estar redondo, de ser coesa dentro de si mesma (e também daquele papo que a obra pode fugir ao domínio do obreiro). O artista não pode escolher donde a bola virá, mas quando ela vir ele tem de saber aonde mandar. O action paiting de Pollock, para alguns yankees o ápice do modernismo e do grande diálogo da pintura, a ponto de pô-lo em termo, pode ter nascido ao acaso (isento-me aqui por não saber ao certo).Eu teria de ter em verdade o mérito do silêncio e não me pronunciar assim sobre este assunto. Mas escrevi escrevendo, e se tu lês agora é porque está publicado, para não perder mais tempo com isso – embora seja evidente que eu vá perder. Eu vejo pessoas com senso estético nato apurado, pessoas inteligentes, que escrevem bem e tudo o mais perdendo tempo com isso. Não há mais porque questionar a arte contemporânea. É uma discussão estéril. E Isso ocorre até com estudantes de arte que lêem livros sobre o assunto, que têm a oportunidade de estudar teoria e crítica de arte (leitura estimulante, aliás). Que dirá no meio virtual, que qualquer um escreve o que quer sem ter conhecimento prévio. E já que estamos num meio assim, eu me aproveito dele, dando um prato cheio para os que queiram criticar-me dizendo que apenas desfilo algumas obviedades e referências. Pois bem, lá vamos.A informação substituir a coisa em si, ou a todas as coisas, a referência substituir o referencial, para ser mais técnico, é uma característica do sistema pós-moderno, porque isso deixa tudo mais rápido, ou se faz necessário por ser a única possibilidade. E a internet atende a esta demanda ao dar espaço a todos, ao permitir que cada um crie a referência para si mesmo, ao iniciar um processo de relação de poder tal qual Foucault elucidou, de todos para com todos e não de cima para baixo. Mas neste jogo democrático, há uma possibilidade ruim ou, mais que isso, assustadora: a de as opiniões e pitacos (a referência) substituírem todo um conhecimento já erigido e registrado em livros (o referencial). Eu mesmo faço isso neste exato momento, chovo no molhado. Chovo no molhado porque qualquer livro decente sobre pós-modernismo responde a tantas questões filosóficas às quais estamos submersos. E qualquer livro decente de história da arte (ou mesmo indecente) torna a pergunta, a polêmica e tudo o mais que envolve arte contemporânea (ou Duchamp, desde a década de 20!) questões tão resolvidas que figurariam tranquilamente em enciclopédias (como de certa forma já figuram). As polêmicas autênticas podem ser igualmente estendidas para o passado também, percorrendo todas as páginas da enciclopédia.Não há porque reinventar a roda (a menos que seja uma reinvenção consciente, como a de Duchamp, ou como o plágio assumido na poesia, uma reinvenção que é no movimento/ ação e não no resultado (a hiper-Marylin Monroe de Warhol mitificada e ao mesmo tempo descartável, repetível – a sopa de tomate tal e qual)). Há que se usar a roda. A reinvenção pejorativa é a colaboração que não precisamos ler por aí. Questões quarentonas sendo levantadas, quando poderíamos discutir coisas deste sistema aceitando-o (porque é inevitável sua presença e importância) – e aí que está o mérito do silêncio: há quem as discuta, mesmo no meio virtual, então não se deve retroceder.

O lado vilão que existe é o caráter de dominação que as coisas tomam quando entram no poder, ou o exagero do outro lado para se manter – o PT antes e depois de ocupar a presidência. A não aceitação da arte funcional e aplicada em escolas de belas artes (o que não é tão condenável, afinal há o design gráfico e outros cursos) é que gera os tais engodos que irrita a tantos. BBB é legal. Não há mal nenhum em cantar Chitãozinho e Chororó em voz alta. O preconceito em relação à arte funcional, à comunicação em massa, ao entretenimento, ao popular é tão preconceito quanto qualquer outro, é tão fechado quanta a porta que fechavam para os impressionistas, que hoje estão por aí a enfeitar calendários em consultórios médicos. Mas cada um deve lutar pelo seu espaço sem degradar o que não conhece. Os que acreditam na arte como uma expressão pura e subjetiva de um talento (e eu creio nela como sendo assim também) têm espaço para exercer sua expressão – e creio que a Transvanguardia Italiana e consequentemente os escritos de Achille Bonito Oliva têm alguns elementos para embasar isso, tal qual o prazer da criação, o artista livre etc (embora eu inda me encante mais do movimento devido à difícil ironia visual que eles buscaram) – o espaço é de todos, prova disso é a exposição de street art que ocupa todo o Santander Cultural, um dos principais sítios de Bienal do Mercosul.
O que também irrita (e faz o papel de vilão da arte, generalizando a todos os envolvidos e os rebaixando a uns pseudo-intelectuais que de fato existem) são os recém-chegados (que podem permanecer assim por anos) que vêem simplesmente no método já algum mérito – uma instalação boba é tão boba quanto um óleo bobo; um vídeo granulado e com narração oblíqua e música sobreposta em camadas pode ser tão óbvio quanto uma novela água-com-açúcar; um artista conceituado pode ter projetos não tão bem sucedidos; uma Palma de Ouro em Cannes pode ser um engodo. Há gente que abana o rabo só de ouvir que um filme é todo em plano-seqüência, coisa que não é novidade desde a Arca Russa, ou mais ainda desde Festim Diabólico. É deles muito provavelmente que vem a maioria dos narizes torcidos. Como disse Hannah Arendt, “o revolucionário mais radical se torna um conservador no dia seguinte à revolução”, e a tendência do conservadorismo é opressora. Eles, bem como os que apedrejam qualquer coisa que não fique boa numa parede sem saber onde pisam, devem ser desprezados, a menos que se institua um movimento pró-arte contemporânea (lutando contra os dois casos), semelhante aos que enfrentam o racismo, o machismo, a homofobia e os abusos e preconceitos de toda sorte (preconceitos antigos, mas ainda perenes – o mesmo caso).

Até porque às vezes as vanguardas se disfarçam de mau-gosto e eu sempre penso que o pós-modernismo dá enfim voz ao povo, aceita definitivamente o humano – pois é uma desistência do horror e da empolgação ante um novo mundo do início do último século do milênio passado (cataloga os preguiçosos, os hedonistas, o pessoalzinho que quer curtir a vida e diz que todos podem ser assim).

E, claro, se “a arte revela o humano”, ela vem cumprindo sua missão. Se antes isso era retratá-lo (até a fotografia, num pensamento objetivo que beira o simplório), passou a ser revelar sua ânsia coletiva, e após sua ânsia individual, ou alegria, ou raiva, ou ideologia, enfim, revelar-se. As obras que iniciaram o pós-modernismo ilustram de maneira elementar as definições dele. E, como tudo, um pouco numa via de mão dupla, definiu e definiu-se. E sofisticam-se para expressarem as coisas cada vez mais como são, como surgem. Assim reporto-me a mais um índice de transformação do século XX: Wittingenstein e a crença de que os limites da linguagem são os limites do mundo, do pensamento. A linguagem (todas as artes) que dê um jeito para acompanhar nossas cabeças, independentemente se aplicarmos as artes ao cotidiano, o cotidiano às artes, ou às artes a arte. Em meio aos meios mais especializados isso meio que acontece (como essa minha tríplice utilização para meio – vide vós que a ingenuidade intencional é um recurso, é como meditar) sem querer querendo, muitas vezes.

A atmosfera poética, como falei alguns parágrafos antes (citando apenas algumas possibilidades) é um estado de amplificação: da coisa em relação ao observador, ou do observador em relação à coisa, como supor saber uma verdade do universo. Amplificar é (também) o que a arte faz com a própria arte, como qualquer ciência ou ramo do saber. Picasso amplificou as distorções da tauromaquia de Goya. Para Matisse, o desenho é um registro do gesto, e muitas ações de hoje (ou dos anos 60) são lupas nesse raciocínio – a matéria é um registro do gesto, do que aconteceu. Ou seja, continua-se do que foi feito anteriormente. Considera-se a história (até quando o objetivo é condená-la). É como um time de futebol, como uma pesquisa científica, como a fabricação de um produto, um passando a peteca para o outro blá, blá, blá. Ramifica-se do que já fora antes, como uma árvore que vai da raiz à flor, para não deixar de apelar para mais uma metáfora simples.

Quanto aos arrebatamentos, Gabriel Orozco diz que a arte não pode mais aspirar ser emocionante, pois a Benetton sempre será mais. Aí entendamos emocionante mais para música ao fundo e cabelos ao vento, mais para uma propaganda natalina do Zaffari. Uma emoção gritada, cantada. E o que dizer quando ao amassar uma argila, o próprio Gabriel diz que suas mãos são seu coração? Num movimento simples, sem nenhuma técnica tradicional, uma expressão belíssima. Então é também de sensibilidade, de emoção que falamos. Os trabalhos de Jorge Macchi que trazem as desapercebidas músicas de fundo e os créditos finais do filme para o centro de uma exposição são de chorar baixinho, dentro da cabeça. Faz The Long and Winding Road parecer exagerada (nem é preciso me convencer de Beatles, eu já tenho uma lista de suas 100 melhores músicas quase pronta para publicação).

Ou as garrafas de Coca-Cola de Cildo Meireles: se apenas vermos a fotografia num livro (“arte visual”) elas parecerão ser o mesmo jogo de Warhol. Porém, se nos informarmos a seu respeito, veremos que na contramão da superficialização pós-moderna significada por Andy, Cildo deu um conteúdo à garrafa (encheu-a) e com sua ação criou uma maneira de significar a resistência à opressão. Além da idéia por si só já se valer, ele ainda usa de um mesmo elemento para metaforizar a comparação entre a angústia da sociedade latino-americana e brasileira com a norte-americana. É da consistência que Ítalo Calvino proclamaria, mas não pôde proclamar como queria, para o próximo (este) milênio (plagiei-me daqui). Digo porque talvez não seja só isso (o próprio Cildo critica o excesso de verbalização como característica da arte contemporânea), mas a idéia é redonda.
É preciso então atingir a arte, ou deixar-se atingir por ela, tanto faz o esquema. Quem assistir Vertigo (ou o spoilerano título Um Corpo que Cai ou pior ainda A Mulher que Viveu Duas Vezes) sem lançar o olhar para além da história contada, pode não perceber a reflexão sobre o poder da imagem e a relação desta com o que representa (algo que se vê em A Vila, por exemplo, preguiçosamente acusado de um suspense mal-sucedido) que há ali. Ou os modelos de Robert Bresson, para o qual os atores são apenas referencias para a criação de relações e metáforas: ao ver seus filmes alguns cidadãos saem da sessão a dizer que os atores não se mexem, não têm expressão, são paradões ( certamente eles devem estar no time que diz que “o coringa rouba o filme”).
O prazer da arte é também o prazer da integibilidade, para além de sua força visual. Como na obra Uma Vista, de Cássio Vasconcellos: seria apenas mais um aglomerado de fotos finamente expostas, não fosse a submersão do indivíduo na cidade e a fragmentação dela propostas pela montagem.
É o prazer da elucidação, de perceber o corpo da obra, de conversar com ela, ouvi-la, mesmo quando o que se ouça seja um grito, uma arroto, um espirro.
É chover no molhado, mas saber como se está chovendo. Pois chovendo no molhado criamos uma grande poça, que se acumulou em rio, que vem desde os gregos e antes deles nos homens das cavernas inundando a cidade, e ao mesmo tempo que dá água, desabriga, traz à tona o lixo – mas sempre transforma.
A arte deixou de ser plástica para ser visual, e hoje (há tempos) deixa de ser visual para ser também sensorial, auditiva, presencial, ativa, intelectual, interativa etc não só no seu significado mas também em seu formato.
E se pensarmos no que dizia Picasso, que toda arte é atemporal, pois ela sempre tem de ser de seu tempo, arte contemporânea é um pleonasmo.
Arte é arte, deu.
E, voltando a citar Leonardo, “quanto mais conhecemos, mais amamos”.
Então a arte não dá nos nervos, ela encanta.
Ou encanta justamente por atingir os nossos nervos.

 

 

 

 

 

 

 

 

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I ♥ BBB

2008,março26,quarta-feira às 11:55AM | Publicado em 2º caderno, crônica, diário, gente | 4 Comentários
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bbb8

Ou melhor, I ♥ final de BBB.

O ♥ não era p/ tanto. Mas eu gosto da final. Aceitei isso ontem. Quando apareceu a Pitty, deu até vontade de cair no clichê, falar mal dela, dos participantes, chamá-los medíocres , da manipulação (às vezes eu perco a paciência e penso que quem se deixa manipular pela TV merece ser manipulado) etc. Mas ontem, não sei se era o bom humor, mesmo os greatest hits da Pitty estavam divertidos, a despeito de suas verdades adolescentes à matrix de “pane no sistema”.

Ontem a fraqueza das personagens (concordo com o pessoal que ninguém em tese mereceria levar uma cifra de 7 dígitos assim, mas por outro lado, expor-se dessa maneira é preciso no mínimo coragem, ou um tipo de coragem, que seja, e muita boa sorte) privilegiou a final, a indecisão na decisão (que pode ser tudo armado como muitos dizem, assim como pode haver leptospirose nas latas de alumínio). Mas, no fim, gosto do rosto da Gyselle (com y e dois l) com uma cara de emburrada, triste e emocionada enquanto Bial a comparava com as feras, ao dizer que elas (e ela) só comem e dormem, e só não o fazem quando vão à caça – o que me fez lembrar que aquele rosto dos olhos negros e então entristecidos encabeça o mesmo corpo que dança incansável e furiosamente, um corpo belo, popularmente belo.

No último capítulo eles editam a história (real, de fato) que se passou e isso que me agrada. São recursos de narração os mais óbvios possíveis, de cinema despretensioso (no mal sentido) água com açúcar. Em verdade, os recursos de edição são os mesmos de uma colação de grau, com a diferença de que o material tem bem mais horas a serem editadas. E não tem de agradar família alguma. Só as felizes famílias regadas à pipoca após as aparições justamente de Juvenal Antena: aí valem as fofocas, barracos, corpões etc. E se na formatura eu me emociono ao mesmo tempo em que acho tudo meio brega, tenho a mesma sensação no BBB.

Lembro de quando o Rafael declarou-se para Mariana dizendo que não poderia a beijar pois estava com um problema no dente, ou ele sendo flagrado olhando para ela com candura depois de tanta promiscuidade (ele se aliviava individualmente sob os edredons), com sua voz em off dizendo o quanto gostava dela; ou o Dhomini dando uma de Romário na copa de 94 e ganhando o Brasil à base da marra; o nerd xaropão Tirso (que tornou-se adjetivo por uns tempos) desbancando um bonitão lá – é vida real empacotada, ou melhor, enlatada e artificializada, como uma lata de sopa de tomates Campbell.

Falando nisso, se o formato do programa submetesse-se ao seu conteúdo, aí seria moderno, e talvez por isso ultrapassado; mas ele é pós-moderno, consagra conceitos de tribalismo, superficialidade, caos, despretensão, igualdade de ofícios, falta de autoria. Trata a fama como magia. É a acomodação do que fora antecipado por Warhol (não se preocupem não irei mandar a dos 15 minutos) e por outros. Uma tribo de sonhos oficialmente assexuada, mas ordenada pela sensualidade, ratos de laboratório do esquemão George Orwell. E, no fim, paradoxalmente, seus atores são como poesias concretas, de forma e conteúdo convergidos; são como a eliminada Juliana, de uma beleza à qual não precisa se submergir, uma sedução menos de casa; é superficial da superficialidade da imagem, do rosto de Gyselle, que sorri, deixa de sorrir, até chora, mas sempre está a tentar ganhar 1 barão de barões.

Uma pequena tribo fútil, que só vê quem quer, e possui uma lógica própria que premia a casualidade (afinal muitos de nós se ficassem à vontade lá poderiam ser fenômenos nacionais, e vi tantos candidatos ótimos terem sido eliminados logo de início e outros pamonhas virarem lendas, até porque o BBB é feito de gentes comuns, tanto que é só comparar a Casa dos “Artistas”), ao mesmo tempo em que valoriza a reação mais que a técnica, que o talento, como numa Copa do Mundo. E como numa Copa do Mundo, as fórmulas se reformulam dentro dessa lógica própria, e certos desvios de sorte valem muito. O que enche o saco é o reflexo de uma popularidade chata, óbvia, que se vê na preferência do povo, especialmente quando se tem algum candidato favorito pessoal que não vence. Eu cheguei a esse ponto só uma vez: fui fã do Professor Aloprado. Àquela época eu acompanhei toda a parte final (TV aberta). Quando aparecia o Endemol Globo eu ficava até triste. Tanto que a edição posterior àquela, a do superestimado Alemão, eu abandonei. Donde só retornei na reta final dessa, mas sem a mesma assiduidade.

Agora, como uma coisa pode emburrecer, daí eu não sei. O Big Brother é um produto e como tal pode ser consumido como se queira: é como a coca (cola). Você pode ler Guimarães Rosa, ser mestre em xadrez (com o mesmo critério que faz de BBB um índice de superficialidade, dá para fazer de índices de certa erudição – tão clichês também) e assistir BBB. Xadrez também é um produto e pode não ter todo seu potencial utilizado. Evidente que João e o jogo milenar (para não repetir nomes) podem ser considerados abridores de mente por excelência, ao passo que o Reality Show (a fim de não reprisar títulos) pode confinar além de jovens sarados a mente dos mais bobinhos. Pode-se emburrecer com qualquer coisa. Assim como se pode se encantar com Rilke e João Cabral, com Décio Pignatari e tantos outros, eu gosto da poesia pop do Bial direcionada a dois nervosíssimos cidadãos sedentos por fama e dinheiro.

O Reality show joga limpo: eles estão ali para ficarem sumariamente milionários e todo mundo sabe, todo mundo aceita. Pior é quem ligava para dar 1 milhão para a Mara achando que estava fazendo uma boa ação, ô boa ação fácil. Mas que bom que ela pode ajudar a filha dela agora.

Mas não é p/ tanto (estou a me repetir hoje, em todos os níveis). Mesmo que pareça exagero o pessoal que passa o dia no Paper View e que trata cada paredão como reveillon, não é muito diferente de quem mergulha na obra e quer ler tudo que Balzac escreveu em detrimento de todo o resto. Estou me repetindo, mas só para afirmar que cada um faz o que quer.

Evidente que se a TV tivesse mais qualidade, manipular-se-iam as mentes para elas se não permitirem manipulação. E repito os parênteses lá de cima: quem se deixa manipular pela TV merece ser manipulado.

Só que a questão é essa: não dá p/ se exigir tanto. Como qualquer outra coisa que faz muito sucesso, o BBB gera ódio em muitos dos que não colaboram para tal sucesso. Eu mesmo tinha um anteprojeto de fazer um estêncil bbb6 no qual o 6 contaminava os b e virava um 666 – vi num livro de estênceis argentino uma idéia semelhante em relação à Xuxa (xxx, six, six, six, como dizem haver na música marquei um xis, um xis...).

E se hoje o Chaves del Ocho é clássico, é cult, o Big Brother Brasil o será nalguns anos.

E mesmo que seja um produto não da, mas para a burrice (quem se arrisca a definir burrice?), basta usar com moderação: uns instantes de “burrice” fazem bem, acalmam a cabeça.

Porém, no final do programa, eu enjoei um pouco mesmo, e hoje pela manhã recalculei o peso da exposição total na idéia de enviar um vídeo para a nona edição. Mas cogitei, afinal, eu sou brasileiro. E no fim (mas uma repetição – notem: BBB formato repetido, Campbell’s Soap, clichês… a repetição acabou tomando forma conceitual), foi só uma espiadinha (muito bagaça esse final, hein?).

Um bJoão e/ou um Grando abraço.

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