sentir

2008,julho14,segunda-feira às 8:11PM | Publicado em crônica | 3 Comentários
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Shyamalan, além de transformar árvore nalguma coisa ameaçadora, um professor secundário de tênis brancos em herói, transformou uma equação exponencial em terror.

E tendo saído do cinema acostumado ao medo, reagi com ele ao que seria de candura, de desânimo da alegria.

Pois foi como terror com trilha sonora aguda que rememorei das penas que me deram ontem, em dois momentos isolados da tela escura da televisão para folgar do sol bonito demais do dia claro.

Rapidamente:

Na TVE, o caranguejo pobre movia lentamente as patas e tirava uma formiga, depois voltava e tirava outra, enquanto neste hiato eram dezenas ou dezenas de milhares as que, após descobrirem um ponto fraco entre suas juntas, nas quais a carapaça não o salvava, na alcunha de soldadas lhe raptavam os membros sem lhe raptar a vida ainda.

No Faustão, num quadro de humor, um humorista tinha de atingir um índice num aparelho virtual ao qual chamavam risômetro, e os segundos foram se indo, o índice não atingido, ele gaguejou e pediu desculpa.

Usando da bizarrice e dos gêneros como arma para ambigüidade, mergulhamos numa experiência áudio-visual sensorial (ecos do domingo passado) de arrebatamento, seja pelo terror, seja pela esperança. E embora ríramos, embora nos comovêramos, pagáramos e batemos palmas também para sentirmos medo. Tudo é do espetáculo (no melhor sentido da palavra, no sentido de aplaudir em pé num teatro).

Mas do medo extrai tudo contíguo a ele: assim a coragem, a imperfeição. Nas tais transformações que falava, Manoj Nelliattu faz com que as esperança e pessimismo brotem da mesma terra.

Então sentir medo é bonito.

E de ver não ser o que se é por importância tanta a alguma coisa – gaguejar, ficar nervoso – como de ver algo só e vivo acompanhar a própria morte e mesmo assim tenta escapar, numa certa inocência, numa certeira impotência.

E por coisas assim a piedade normal e estranhamente nos repleta o espírito.

E tanto é espetáculo que a imagem isoladamente de um caranguejo submetido a um ataque coletivo de formigas é de fluidez tão harmônica que bela, se nos despirmos da amizade que fazemos com o caranguejo.

Então se a apego inútil enfeie a música do espetáculo, talvez seja um mal este cuidado, pois o mundo tem de ir para frente e aos vencedores as batatas.

E talvez assim se encha o peito para que dê alívio a esta pena que se dá, as notas altas de suspense, e o coração precisa ser mimado, sentir-se útil, quando o resto todo sabe que aquilo é assim mesmo.

Mas deixemos a selvageria aos animais.

Aplaudamos também os que fracassam.

Que no fim são espetáculos todos. São nomes (fracasso e sucesso, medo e coragem etc) que a gente fica dando. Que a gente fica girando a mesma moeda. O coração só se enche e se esvazia, e algumas coisas aceleram, desaceleram ou impedem este processo.

Bonito é sentir.

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faz-me rir, brasil-zil-zil

2008,maio5,segunda-feira às 7:06PM | Publicado em gente, hojes | 1 Comentário
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Sabe o que ia ser muito engraçado? Se descobrissem que realmente houve uma terceira pessoa no Nardoni’s defenestrações. E nem precisava ser o André travesti do Ronaldo. Imagina a voz do povo (enquanto voz de deus) gritando “puta que pariu, linchamos as pessoas erradas!” Aí o povo teria de gritar em coro (como gritou Lula lá porque o Lobão chamou no domingão em 89, como gritou Collor, Collor no Raul Gil no tirando o chapéu) para que eles ressuscitassem, contando que sua (ou Sua?) voz realmente possuísse o status da do todo-poderoso – nem que fosse para chamar Jesus, tipo “filhão, dá um jeito nessa porra aí p/ o Pai”. Mudemos de assunto, o assassinato já deu o que tinha de dar. Afinal, tão incomum quanto um pai matar a própria filha é um pai amar a própria filha e constituir família com ela. Ou terremoto no Brasil. Ou um padre voar 5.000 m com balões. Ou o Ronaldo, com aquela namorada, com tantas outras na lista, ir dar um rolé com uns parceirões. Que coisa o Ronaldo, hein? Provavelmente ele não sabia que elas, os travestis, estavam travestidos de mulheres, mas não eram mulheres. Aliás, uma curiosidade é que é “o” travesti, mas todo mundo fala “ela” – penso que para ser democrático(a) com os dois gêneros dentre os quais visualmente flutua. Mas foi, segundo o próprio, o pior erro da vida de Ronaldo, que anunciou ontem em rede nacional que é humano. Mas sem chance, o povo não perdoa: castigo para ele também, junto com o padre, que quis voar (aliás, Bartholomeu de Gusmão deve estar se retorcendo no túmulo a fim de deixar o mesmo e correr atrás dos seus direitos de uso da alcunha padre voador), e com o Rubinho 257 GPs Barrichello, que apesar de nunca ter se envolvido publicamente com a prostituição, especialmente com colegas de cromossomos Y, é um péssimo exemplo por não ter substituído Senna à altura, missão, aliás, que qualquer brasileiro, como vencedor que é, faria s/ maiores dificuldades. Qualquer um no lugar do Rubinho venceria todas e desobedeceria aos patrões – como todos fazem dia-a-dia atrás de seus sonhos em cada atividade trabalhista ao longo do nosso Brasilzão; ninguém no lugar do Ronaldo correria atrás de um pouco de promiscuidade, especialmente os jogadores de futebol e os ricaços, eles nunca fazem isso. Aliás, realmente não sei como há tanta demanda de prostituição se a procura praticamente inexiste. E ninguém também sairia irregular com seu próprio veículo, como o fez o fiel depositário do próprio mal o capitão que naufragou uma galera na floresta Amazônia ontem – ponto para os certinhos. Ontem também, na sua revista eletrônica semanal, o Fantástico, houve uma matéria sobre uma faculdade do Rio de Janeiro à qual não irei citar pois a Globo – que tem um Ibope relativamente maior que o meu – já tratou de queimar o filme (mas é a Unigranrio) que teria uma porção de alunos do ensino fundamental estudando lá se fosse possível os matricular pois eles conquistariam vaga no vestibular se tivessem capacidade legal para usufruir da aprovação nele como já havia dito. Mas fica a pergunta: onde os burros, os que têm preguiça de estudar, os azarados, os que não tiveram condições e outros tantos fariam faculdade? E quem preencheria as vagas de funções medíocres que o mercado demanda? Como cumprir funções que exigem a mesma falsidade com que foram conquistadas? Onde os profissionais medíocres especializar-se-ão em mediocridade? Pensemos. E esperemos pelos próximos heróis e vilões do povo, e pela permuta entre estas duas condições das personagens que o povo vai ou não com a cara (ou vê ou não na imprensa). O Brasil é engraçado, ouve-se muito isso. O Pânico na TV fez uma tomada na frente do puxadinho da Hebe (medido em quarteirões). Cada carro que aparecia… Tudo bem o Michael Jackson ganhar tanto dinheiro, mas tinha uns ali que não havia explicação. E muito do povo nem se fala. Nem precisava o Vesgo e o Sílvio lá para ser engraçado.

O Brasil é engraçado, mas o resto do mundo o é também (donde temos a manchete da semana).

uma coisa mais leve e muitíssimo maior

2008,março24,segunda-feira às 11:49AM | Publicado em crônica, diário | Deixe um comentário
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A sexta santa foi calor. A noite foi daquelas noites que só nela é possível encarar a rua (tal como uma personagem masculina de Machado de Assis que preferia a noite ao dia, cujo conto a que pertencia não me recordo pois havia confundido com Miss Dollar, que li também em 2002, possivelmente), embora durante dia inteiro tenha sido pouco possível ficar em qualquer lugar (aí se inclui a casa) sem esquentar muito.

Ideal p/ aventuras noturnas. Eu imagino na praia, à qual este ano não fui. Sábado o mesmo: mormaço, noite tropical.

E comemorava-se nesta época Cristo morto. Porém nenhum silêncio.

O domingo em si, o dia da ressurreição, foi cinza.

Nenhum barulho.

Cristo está de volta. E volta a melancolia, a reflexão.

* * *

Ontem, fazendo o caminho POA-Canoas, presenciei o incêndio na fábrica de fertilizantes Yara, que segundo a minha mãe era de velas. A fumaça preta já alcançava muitos metros. Claro que deixarei bem claro que não é uma coisa boa incêndio, vai ter problema para muitas pessoas, embora graças a deus (que estava comemorando seu 1975º aniversário de ressurreição) não houve ferido algum, mas essa desgraça toda, poluição causada, isso tudo é horrível etc.

Mas a sensação era a de ver uma nuvem do mal de perto. Era de ver o poder do fogo.

E era fascinante:

uma coisa muito maior, muito mais leve e muito mais poderosa que nós, mexendo-se, no céu.

Tanto que uma porção (talvez até uma multidão) de curiosos aglomerou-se nos arredores do infortúnio.

Hoje faz uns 28ºC e está nublado. Passou por mim hoje no centro de Canoas um cara igual ao Shyamalan, ou ao menos igual (no sentido de “lembra”) a todos os outros descendentedes de indianos.

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