[OPS iii] cri-critica-se (ou o silêncio da sutileza)

2009,fevereiro28,sábado às 2:05PM | Publicado em crônica, hojes | 1 Comentário
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Em férias da repartição desde ontem. Amanhã viajo. Meu mais recente texto: Cri-critica-se (ou o silêncio da sutileza) na coluna do OPS – O Pensador Selvagem. Ofereço-lho. Até a volta (1 ou 2 semanas). E ando pensando em fazer algo que eu nunca pensei que faria: voltar ao Blogger. Foi mais ou menos nesta época que vim para o wordpress.com. Geral baba o ovo do wordpress, especialmente em relação ao Blogger, mas acho que a questão é o .org, pois o .com deixa muitas coisas a desejar em relação ao serviço googlense (mas evidenmente tem vantagens também). Mas apenas pensando alto, depois vejo o que faço. Por enquanto, fiquem com o texto:

bonequinho_o_globo aplaudindo

TRECHOS:
“E daí o Health Ledger faz o papel do Coringa e todo mundo sai da sala dizendo “o Oscar é dele”, sendo que a maioria esmagadora dos outros concorrentes (as atuações e não os atores) nem foram conhecidas. Como designar um melhor sem conhecer os piores que ele? É fundamental conhecer para criticar, ou ao menos ser suficientemente honesto para apresentar as características da opinião (se é pessoal, leiga etc.).”
~~~
“Ninguém (ninguém = maioria) vê (ou se importa com) a diferença entre Helvética e Arial (…) se você quiser usar Arial para escrever algum recado no seu escritório ou até mesmo fazer um cartaz, tudo bem, mas jamais fale dela como índice de excelência de design, porque isso pertence à Helvética.”

x: vezes em vez de versus

2008,dezembro22,segunda-feira às 10:06AM | Publicado em crônica, editorial, hojes | 2 Comentários
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Talvez isso seja uma memória do que de positivo os comercialíssimos quadrinhos norte-americanos que se usam da trama para vender mais (notem que não pus vírgula antes do que, especificando-os portanto), do tipo Marvel vs. DC (e aí sim o “comercialíssimo” da coisa, a série Amálgama que inventaram para vender gibis, misturando de modo bizarro Batman e Wolverine) me deixaram subliminarmente, ou simplesmente a constatação óbvia do que vem acontecendo no popular “hoje em dia” ou de seu sinônimo mais seguro num nível de debate “pós-moderno”, ou ainda (para que não faltem “ou”) alguma filosofia já velha e sabida que me escape ou (mais provável se for o caso de ignorá-la, por confiar mais em minha preguiça que em minha falta de memória) falte. Ou porque eu fui maloqueiro e nerd ao mesmo tempo durante minha vida colegial e eu não estava sozinho.
Enfim:

X = VEZES EM VEZ DE VERSUS

Mais um texto na minha coluna no OPS estendendo (mas evidentemente não o suficiente) este assunto a partir desta frase por mim cunhada (ou por mim, cunhada, se falasse com a irmã de minha esposa ou esposa de meu irmão, se tivesse irmão e ou esposa, embora os tenha de certas maneiras) em meados de 2006, quando escrevia meu livro ainda não publicado.

Deixem de conferir (tipo aqueles anúncios “não leia”, que já foram geniais).

Ensejando a atmosfera editorial, final de ano para mim é época de comer doce e tomar refri sem cuidado algum, bem como champanha, ceva, pernil, pizza de mm’s, gordura saturada, dormir sempre que possível, praticar somente os exercícios divertidos (geralmente esportes), deixar tudo para o ano que vem, assistir novela, além dos clássicos/ clichês inerentes à época.
Portanto, um HO, HO, HO extra, pois embora haja muitas idéias pendentes de prática (ou ainda a maioria delas) esta não é uma época para muitas novidades. Se todos forem como eu, devem estar meio desligados – embora eu tenha esta sensação num campo ideal, já que dia 25 acabo por (às vezes) fazer muitas coisas que faria normalmente num domingo ou feriado.

Aliás, como não descobri ainda como inserir aquele plug-in/ widgjet posts semelhantes, se alguém quiser pensar mais sobre o vs., não leia isto.

calamidade – SC

2008,dezembro1,segunda-feira às 10:00AM | Publicado em crônica, hojes | Deixe um comentário
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A situação do leste de Santa Catarina nos deixa constrangido em falar em outra coisa.
Tudo parece bobagem, supérfluo, inútil etc. ao se aproximar da falta de saúde, da falta da paz: das tragédias em geral.

Duvido que Deus não tenha consciência disso, está em todos os telejornais, mas assim mesmo as pessoas pedem, oram por quem nem conhecem. E mais uma vez vemos o potencial solidário de ser ser humano, especialmente com a tão necessária ajuda material. Isso é muito bonito.

O bom seria termos esta consciência de maneira contínua. O mundo está sempre em estado de calamidade, a tragédia sempre se reparte por aí.
Sempre alguém precisa de comida, de um armário, de um agasalho. Do lado da nossa casa. Então espero que o exagero de desgraça em SC funcione como funcionam os desfiles de moda, que ao mostrar exageros nos dão tendências do que fazer no cotidiano. Ontem vi que passou Todo Poderoso na Globo durante a tarde, e a mensagem moralizante do filme somada à campanha do Fantástico deve ter deixado muitos brasileiros com o coração repleto de solidariedade (que é uma das coisas que mais repleta o coração). Espero que isso não se encerre em um depósito e perdure como atitude ante o mundo, mesmo que em pequeníssimas coisas.

Se o mundo está sempre em calamidade, segundo eu mesmo, não nos podemos constranger em falar do resto. O belo é tão útil quanto o útil […], disse, segundo o Wikiquote, Victor Hugo. O que me permite dizer que acho bonito Mallu e o Camelo juntos em tempos de tragédia catarinense. Parece amor imaterial se materializando. De tudo aquilo de intelectual, sentimental e estas coisas às quais convém chamar alma/ espírito. E, como disse antes, com uns beijos etc. para representar esta comum admiração/ falta/ predileção e torná-las úteis. O abraço deles é um recorte daquilo tudo que se tem falado a respeito. É um recorte meu, que assim despreza todo o resto que não fora destacado. Este momento parece ser feliz dentro daquilo que o Camelo parece ser. Agora ele pode passear com seu sapato novo e acompanhado e ser ingênuo à vontade. E isso é a única coisa que falarei sobre isso (acho). Mais que isso fico constrangido, mas por outros motivos. E ao menos agora alguns pseudo-intelectuais/ intelectuais perceberão o valor de uma Contigo!.

Para encerrar, o girassol que eu ganhei (cortaram-no do caule, recebi somente a flor, ganhei um moribundo), uma belezinha de um 25 cm de diâmetro, após duas semanas bebendo água de um jarro está mais e mais perto da morte e com isso seu cheiro ficou forte na sala.
O cheiro da morte me parece cheiro de vida. O cheiro da morte do girassol talvez seja o cheiro de vida acentuado, um orgasmo da vida, de seus últimos momentos antes do fim (se lembrar, porei um texto que falo sobre isso, um texto que é um trecho do livro que talvez um dia publique e que talvez não fale sobre isso, mas isso).

E para encerrar de vez, um dos tantos esboços perdidos no tempo que subi no Flickr nestes últimos dias, de uma família lugar-comum passeando:

obama lá

2008,novembro5,quarta-feira às 11:43PM | Publicado em crônica, gente, hojes | 3 Comentários
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Como disse no Twitter (ou twittei), hoje um Lindemberg filho de Richthofen poderia atirar uma Isabella Nardoni pela janela que não teria vez no JN nem noutro lugar: só dá Obama.
O Sarney falou que é uma consagração da democracia (ou algo assim). Muita gente falou isso, mas não bastasse falar, ainda brilharam os olhos.
Agora eu penso nesta coisa brasileira de olhar assim (um “assim” fã) para os E.U.A..
Há seis anos atrás um torneiro mecânico que se formou no movimento grevista operário tornou-se presidente do Brasil.
Claro que eu entendo a euforia geral em volta do Obama (e a imprensa já faz seu trabalho para amplificar isso), e eu mesmo torci para ele, mas, em termos de consagração de democracia, o nosso four-fingers já é o bastante. Ou seja, piadas e piadas, e nada de olhos brilhando.
O Brasil é uma harpia que acha que ser águia é muito melhor.

Para não perder o costume, quem quiser assistir o vídeo que fiz sobre democracia no viés do número 8 (!) (está também uns posts abaixo) vide aqui.

Lembra quando diziam o ZAZ mudou e agora virou Terra? Pois bem, este post era uma mensagem no Twitter e agora (não hoje, mas somente atualizei hoje) virou texto no Amálgama.

ovni voador não identificado

2008,outubro29,quarta-feira às 9:58AM | Publicado em crônica, editorial | 9 Comentários
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Tem Texto meu no Amálgama. Eu não mando em (quase) ninguém, senão eu diria vide/ leia/ comente/ responda etc. Mas, uma vez que está publicado, sinta-se à vontade p/ ver/ ler/ comentar/ responder etc.
Abaixo alguns (…) trechos (…):

“‘Crer’ em vez de “acreditar” para, embora desprovido de qualquer embasamento semântico, dar uma conotação de fé flutuante: de não saber bem no que, mas uma fé, uma fé por si só, tão sincera que me dá medo.”

“E disso é que indubitavelmente já são feitos (…) uma materialidade possível, uma abstração certeira.”

“(…) as coisas se distorcem na hora de transformar um roxo em #800080, ou #570057, ou #C800FF, ou #4B0082 (…)”

“As coincidências fazem parte do desempenho serial (abc, abb, acb, bbc, bcc… uma hora ou outra chega o aaa, o bbb, o ccc).”

“(…) fazer-nos ver a vida na Terra de fora, tudo isso, este meio do caminho entre o bicho e a nave interestelar, ou mais esticado, entre o ser unicelular e a máquina do tempo, entre o hidrogênio e o _ _ _…_.”

“(…) o(s) universo(s) é(são) tudo. E quando pensamos num universo grande demais – no sentido físico, já que, sendo tudo, todos são finitos, mas não têm fim, como a Terra, e, se pensarmos no que dizia Goethe, que achar o infinito é lançar-se a todas as diferentes direções do finito – isso, o finito sem fim é infinito, ou, quase isso, mas não num modo abstrato, a versão prudente de infinito: os outros “i”: imensurável, incontável, inimaginável.”

“(…) o caso tenha sido de dois ouvirem falar e falarem para um outro, e o outro simular algo para alguém e para este alguém isso virar verdade e para alguém que confia naquele alguém anterior a este se ele disse que é verdade é verdade também, e os que ouviram falar ouviram uma invenção gratuita, ou a mesma relação com um número diferente de atores (as armações e os mal-entendidos são de fomento simples, basta a estes uma dose de segurança e àquelas iniciativa e falta ou distorção de ética), a sensação é real, as sensações em si são sempre reais (…)”

Um bJoão e/ ou um Grando abraço.

a 1ª pedra

2008,outubro28,terça-feira às 10:11AM | Publicado em crônica, hojes | 4 Comentários
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Eloá morreu. A culpa é da imprensa. A culpa é da polícia. A culpa é do culpado. A culpa é da Eloá. A culpa é do amor. Bruno Barreto disse que o caso de Lindemberg é parecido com o do ônibus 174. Sandro participou da chacina da candelária. A polícia participou da chacina da Candelária. A imprensa falou que a chacina da Candelária não é legal. Lindemberg ama Eloá. Sandro não amou. Luiz Eduardo Soares escreveu um livro (entre tantos outros) no livro uma coisa que mostra (entre tantas outras) o BOPE é cruel. José Padilha dirigiu um filme a partir do livro de Luiz. Capitão Nascimento para presidente. O BOPE é herói. José Padilha dirigiu o documentário ônibus 174. Um policial do BOPE matou sem querer a refém. O BOPE é vilão. Bruno Barreto pode ir ao Oscar com o filme 174 última parada. Bruno Barreto é herói. Bruno Barreto perdeu o Oscar em 97. Bruno perdeu o Oscar. José e Luiz pensaram o ônibus 174. Gabriel o Pensador fez uma música 175 nada especial. O policial errou o tiro. O Lindemberg perdeu a vida. O Lindemberg errou. O Sandro errou. A imprensa disse que eles erraram. A imprensa disse que Bruno perdeu o Oscar. A imprensa não disse que ela errou. 40 mil pessoas no enterro de Eloá. 1 pessoa no enterro de Sandro. Sandro morreu.

Bem, falando mais racionalmente (ou oficialmente, pois raciocínio da mesma forma e a irresistível comparação-clichê fôrma) sobre o assunto, fiz um comentário tão extenso que o poderia transformar em texto, mas como inventaram o link, vide o texto de João Paulo Lima ao qual o comentário seguinte se reporta, para eu registrar sem os palavrões o que fico falando mais ou menos para todo mundo quanto o assunto é este. E assim é bom porque já dá para se saber o processo que resultou naquele texto caixa 14pt lá em cima. Ei-lo:

Esta síntese de ficção e realidade seria uma tendência pós-moderna, de a vida real ser o espetáculo, dos 15 minutos de fama. Mas o que prudentemente chamaste atenção é para o fato da imprensa “ficcionar” a realidade, ou seja, forjar uma hiper-realidade, ainda que o real alterado seja o do mundo criminal, da notícia, o que exige muito mais responsabilidade (ou neste caso culpa) do que um produto cultural, como um reality show.

Porém eu repenso o papel de um terceiro elemento que agrega o seqüestro em si, que complementa o papel da polícia e da imprensa: nós, os espectadores, os que também contam a história.
Criticamos a imprensa, mas a visão que temos foi fornecida por ela. Claro que podemos filtrar a informação que recebemos, mas não podemos ter mais informações do que temos. Analisamos o caso da TV sem conhecer pessoalmente nenhum dos envolvidos e neste sentido colaboramos para dar a ficção desta realidade, porque ainda não possuímos o conhecimento desta realidade.
Há quase um consenso em dizer que houve erro da polícia e que o rapaz se alterou devido à presença da imprensa.

Sobre o que falou Bruno Barreto, há a teoria de Luiz Eduardo Soares, da invisibilidade dos meninos de rua, da qual ele fala no documentário de José Padilha. Segundo ele, o menino de rua quer ser visto, quer marcar sua existência no mundo, pelo qual passa despercebido (quando aponta a arma ele está a estender a mão para pedir ajuda). O caso do seqüestro pode ter sim suas semelhanças (e muito provavelmente tem), porém no universo de Lindemberg, dele para Eloá, para seus amigos, para o mundo todo ver; mas temos de lembrar que é um caso pessoal, posto que o caso do Sandro do ônibus 174 é o recorte de um caso genérico, baseado no estudo de um nicho (sub)social (perdoem-me os termos não técnicos): os meninos de rua. Mas o caso de Lindemberg é muito específico, não se pode classificá-lo ainda num nicho determinado, como se pôde no caso de Sandro (e isso somente após ir atrás das informações da vida do rapaz, de investigar uma possível origem de sua motivação – o filme de José Padilha citado antes é um belo estudo sobre isso).
O que quero dizer é que é cedo para falar e que temos apenas uma superfície, fornecida pela imprensa. A impressão que tenho é que fazemos análise sobre uma versão de história, desde o começo encaixamo-la no caso do rapaz-que-faz-uma-besteira-vira-um-show-e-gera-uma-tragédia-sem-querer, subestimando sua capacidade criminal e superestimando esta influência da imprensa, e tudo isso sem ainda conhecer a história mais a fundo.
Com a ação policial o buraco é ainda mais embaixo, pois muito da técnica que aprendemos para criticar a técnica deles vem novamente da imprensa, de entrevistas de especialistas, opiniões de autoridades no assunto etc. Mas, a não ser raríssimas exceções de alguns que devem ter algum conhecimento tático sobre seqüestros, o conhecimento destas opiniões não nos habilita a fazer análises próprias. Somos ainda leigos. Eu posso dizer que tal fulano especialista nisso e naquilo disse que eles erraram, mas eu não tenho condições de afirmar o mesmo.

Claro que teu texto analisa o caso também como um exemplo, como ilustração (mas não somente isso) desta influência da imprensa, o que é muito bem observado. E sutilmente fala da fabricação (ou “potencialização”) de criminosos por parte dela e da polícia, outro ponto importantíssimo. “A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada”, como disseste, bem como a hipótese da polícia ter cedido à pressão da mídia (quando talvez nem devesse deixá-la se envolver tanto, dar tanta atenção). Assim é importantíssima não tanto a conclusão (porque se tem falado dela por aí), mas a análise (e o recurso de comparação com a tragédia) que usaste para se chegar a ela. Mas creio que temos de ter cuidado ainda com a simplificação do fato (não é o caso do teu texto, mas sim do que ele pode gerar nos seus leitores) para não sermos também vítimas desta “recriação do real”.

o que há, velhinho?

2008,outubro1,quarta-feira às 2:17PM | Publicado em crônica, hojes | 1 Comentário
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O conceito pejorativo que se tem da velhice é o mesmo que se tem da erudição. O mundo é jovem na medida que é popular.
E o popular é a primeira instância das coisas, que depois vão se sofisticando porque perdem a graça ou a utilidade. Porque se quer ou se precisa mais. As relações financeiras eram tão básicas, lucro, juro, prejuízo, e hoje temos o mercado financeiro e seu micro universo hermético. Na maturidade, fazemos da nossa vida um micro universo hermético, que cita toda a obra anterior.
A juventude é uma coleção de novidades que se vai repetindo e perdendo força, e que por isso necessita reinventar-se para fazer um sentido maior que não somente a novidade. Depois de um tempo não impressiona mais. Precisa de detalhes mais sutis, detalhes que só iniciados percebem. A luta pelo arrebatamento e pela surpresa passa a ser mais dura.
Deixa de ser coca cola e vira uísque, deixa de ser Michelangelo e vira Andy Wharol.

 

Mas para ser velho é preciso enjoar de ser jovem. Porquanto faz parte da juventude a impulsividade, a urgência: para que ela se esgote no seu tempo, para que ela queime a si mesma.
Ser maduro é ser mais sofisticado. É ser mais novo, ser contemporâneo.
Para um velho, ser jovem é coisa do passado.
Para um velho, ser jovem é ser ultrapassado.

 

***

Se a maioria dos garçons não fosse composta de jovens, a profissão chamar-se-ia vieillard.

 

 

o frio é fogo

2008,setembro8,segunda-feira às 10:38AM | Publicado em crônica, hojes | 3 Comentários
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Eu não sou de dizer eu disse, mas eu disse: não subestimem o inverno gaúcho (o sul-rio-grandense pertence ao termo gaúcho). Não subestimem a porra do inverno gaúcho. Não subestimem o magnífico inverno gaúcho.

10ºC. Frio, ainda que os gaúchos digam que dez graus não é nada, ou seja, que são muitos, por estarem acostumados a bem menos, a pouquíssimos.
Mas o vento deixa o frio dopado, na conotação atlética do termo, de melhor desempenho.
Como se num repente estivéssemos todos andando em motos. De tal modo que uma sacola voando não era apenas uma sacola voando, era uma sacola voando e com frio.

O frio: ele fenixosamente retorna sempre. Setembrão e o bicho pegando. O bicho tremendo. Nevando em cidades que não se viam sob neve há dezenas de anos.
Mas punk mesmo foi o do ano passado, um inverso sólido, intenso e constante (quase que os três significam a mesma coisa) de oito meses – costume novamente gaúcho de valorizar a história dos invernos (“no meu tempo o mau tempo…”).

O frio gera conforto nas pessoas justamente pela sua ausência, ou melhor, pelo seu isolamento ou neutralização.
Proteger-se do frio, da chuva os tornam coisinhas fofas “que chuvinha boa, que friozinho p/ ficar dentro de casa”, quando em verdade eles são devastadores. Queimam. São lâminas, ambos. Ou todos, inclui-se aí o vento, do que eu originalmente falava.

Estima-se assim o desconforto que seria estar lá os enfrentando, quando numa briga covarde se apela a paredes e calefações, usando destes termos aplicáveis a crianças, falando em cãezinhos quando tratamos com bestas.
Pois apenas se supõe. Somente se conhece o frio – e sua gangue – quem (aqueles que) o(s) enfrenta(m) (jogar bola na chuva, no inverno, por um exemplo, para não me reportar a problemas sociais que me levariam a desviar severamente o assunto). Aí é o frio desgraçado, maldito.
Só assim se pode saber (saborear, a sabedoria da etimologia) seu poder.

Por isso há tanta dor de cotovelo. A verdade tem de ser vista por fora, o valor tem de ser mensurado pela ausência, pelo tamanho do vazio deixado.
Conhecer o amor é sofrê-lo.

a arte dá nos nervos

2008,agosto28,quinta-feira às 10:41PM | Publicado em crônica, critica-se | 7 Comentários
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“Nessuna cosa si può amare nè odiare, se prima non si há cognition de quella”
Leonardo da Vinci

O

que me dá nos nervos na arte e ao mesmo tempo me encanta é o modo como ela se disfarça de outras coisas dando uma atmosfera poética a estas coisas – a atmosfera poética é um estado de atenção amplificada, que torna os detalhes poéticos – a palavra poética em si já substitui todas as outras: a atmosfera melancólica é um estado depressivo que faz qualquer detalhe parecer triste e assim vai indo, e a possibilidade deste sistema lingüístico (ou mais que isso, sensorial) de percepção é que determina a poesia.
Há trabalhos de intervenção urbana performática que discorrem sobre passar perigo em ambientes urbanos: mas se passa muito menos perigo que qualquer praticamente médio de le parkon. O que em princípio diminuiria qualquer mérito do aventureiro artístico. Mas é na maneira como olha e como faz olhar (convidando) que mora a arte. Fazer conscientemente, falar da feitura fazendo, vivenciando, experimentando. É o que se recorta dali. Por isso alguns riscos em galerias valem tanto mais que outros muito mais numerosos e de “qualidade técnica” (aspas para relativizar) superior num esboço do Alex Ross. O erro está em quem se perde nesta avaliação (e até formandos em artes fazem isso) e analisa o material em si, quando em verdade ele é peça em favor de uma idéia.Peça porque se trata de uma equação, que como equações avançadas contam com referenciais. Às vezes são equações para provarem conjeturas. E às vezes a arte é a conjetura em si, os estros adivinhando possibilidades que a física quântica talvez burocratize.Mas as criações subjetivas que fiquem para as apreciações subjetivas, que aí se conversam na mesma língua, poderíamos dizer. Eu fiz uma interpretação de Paranoid Park e da relação deste filme com sua música, depois descobri que muitas combinações foram feitas ao acaso por Van Sant – mas a essência faz sentido, a obra se fecha, no sentido de estar redondo, de ser coesa dentro de si mesma (e também daquele papo que a obra pode fugir ao domínio do obreiro). O artista não pode escolher donde a bola virá, mas quando ela vir ele tem de saber aonde mandar. O action paiting de Pollock, para alguns yankees o ápice do modernismo e do grande diálogo da pintura, a ponto de pô-lo em termo, pode ter nascido ao acaso (isento-me aqui por não saber ao certo).Eu teria de ter em verdade o mérito do silêncio e não me pronunciar assim sobre este assunto. Mas escrevi escrevendo, e se tu lês agora é porque está publicado, para não perder mais tempo com isso – embora seja evidente que eu vá perder. Eu vejo pessoas com senso estético nato apurado, pessoas inteligentes, que escrevem bem e tudo o mais perdendo tempo com isso. Não há mais porque questionar a arte contemporânea. É uma discussão estéril. E Isso ocorre até com estudantes de arte que lêem livros sobre o assunto, que têm a oportunidade de estudar teoria e crítica de arte (leitura estimulante, aliás). Que dirá no meio virtual, que qualquer um escreve o que quer sem ter conhecimento prévio. E já que estamos num meio assim, eu me aproveito dele, dando um prato cheio para os que queiram criticar-me dizendo que apenas desfilo algumas obviedades e referências. Pois bem, lá vamos.A informação substituir a coisa em si, ou a todas as coisas, a referência substituir o referencial, para ser mais técnico, é uma característica do sistema pós-moderno, porque isso deixa tudo mais rápido, ou se faz necessário por ser a única possibilidade. E a internet atende a esta demanda ao dar espaço a todos, ao permitir que cada um crie a referência para si mesmo, ao iniciar um processo de relação de poder tal qual Foucault elucidou, de todos para com todos e não de cima para baixo. Mas neste jogo democrático, há uma possibilidade ruim ou, mais que isso, assustadora: a de as opiniões e pitacos (a referência) substituírem todo um conhecimento já erigido e registrado em livros (o referencial). Eu mesmo faço isso neste exato momento, chovo no molhado. Chovo no molhado porque qualquer livro decente sobre pós-modernismo responde a tantas questões filosóficas às quais estamos submersos. E qualquer livro decente de história da arte (ou mesmo indecente) torna a pergunta, a polêmica e tudo o mais que envolve arte contemporânea (ou Duchamp, desde a década de 20!) questões tão resolvidas que figurariam tranquilamente em enciclopédias (como de certa forma já figuram). As polêmicas autênticas podem ser igualmente estendidas para o passado também, percorrendo todas as páginas da enciclopédia.Não há porque reinventar a roda (a menos que seja uma reinvenção consciente, como a de Duchamp, ou como o plágio assumido na poesia, uma reinvenção que é no movimento/ ação e não no resultado (a hiper-Marylin Monroe de Warhol mitificada e ao mesmo tempo descartável, repetível – a sopa de tomate tal e qual)). Há que se usar a roda. A reinvenção pejorativa é a colaboração que não precisamos ler por aí. Questões quarentonas sendo levantadas, quando poderíamos discutir coisas deste sistema aceitando-o (porque é inevitável sua presença e importância) – e aí que está o mérito do silêncio: há quem as discuta, mesmo no meio virtual, então não se deve retroceder.

O lado vilão que existe é o caráter de dominação que as coisas tomam quando entram no poder, ou o exagero do outro lado para se manter – o PT antes e depois de ocupar a presidência. A não aceitação da arte funcional e aplicada em escolas de belas artes (o que não é tão condenável, afinal há o design gráfico e outros cursos) é que gera os tais engodos que irrita a tantos. BBB é legal. Não há mal nenhum em cantar Chitãozinho e Chororó em voz alta. O preconceito em relação à arte funcional, à comunicação em massa, ao entretenimento, ao popular é tão preconceito quanto qualquer outro, é tão fechado quanta a porta que fechavam para os impressionistas, que hoje estão por aí a enfeitar calendários em consultórios médicos. Mas cada um deve lutar pelo seu espaço sem degradar o que não conhece. Os que acreditam na arte como uma expressão pura e subjetiva de um talento (e eu creio nela como sendo assim também) têm espaço para exercer sua expressão – e creio que a Transvanguardia Italiana e consequentemente os escritos de Achille Bonito Oliva têm alguns elementos para embasar isso, tal qual o prazer da criação, o artista livre etc (embora eu inda me encante mais do movimento devido à difícil ironia visual que eles buscaram) – o espaço é de todos, prova disso é a exposição de street art que ocupa todo o Santander Cultural, um dos principais sítios de Bienal do Mercosul.
O que também irrita (e faz o papel de vilão da arte, generalizando a todos os envolvidos e os rebaixando a uns pseudo-intelectuais que de fato existem) são os recém-chegados (que podem permanecer assim por anos) que vêem simplesmente no método já algum mérito – uma instalação boba é tão boba quanto um óleo bobo; um vídeo granulado e com narração oblíqua e música sobreposta em camadas pode ser tão óbvio quanto uma novela água-com-açúcar; um artista conceituado pode ter projetos não tão bem sucedidos; uma Palma de Ouro em Cannes pode ser um engodo. Há gente que abana o rabo só de ouvir que um filme é todo em plano-seqüência, coisa que não é novidade desde a Arca Russa, ou mais ainda desde Festim Diabólico. É deles muito provavelmente que vem a maioria dos narizes torcidos. Como disse Hannah Arendt, “o revolucionário mais radical se torna um conservador no dia seguinte à revolução”, e a tendência do conservadorismo é opressora. Eles, bem como os que apedrejam qualquer coisa que não fique boa numa parede sem saber onde pisam, devem ser desprezados, a menos que se institua um movimento pró-arte contemporânea (lutando contra os dois casos), semelhante aos que enfrentam o racismo, o machismo, a homofobia e os abusos e preconceitos de toda sorte (preconceitos antigos, mas ainda perenes – o mesmo caso).

Até porque às vezes as vanguardas se disfarçam de mau-gosto e eu sempre penso que o pós-modernismo dá enfim voz ao povo, aceita definitivamente o humano – pois é uma desistência do horror e da empolgação ante um novo mundo do início do último século do milênio passado (cataloga os preguiçosos, os hedonistas, o pessoalzinho que quer curtir a vida e diz que todos podem ser assim).

E, claro, se “a arte revela o humano”, ela vem cumprindo sua missão. Se antes isso era retratá-lo (até a fotografia, num pensamento objetivo que beira o simplório), passou a ser revelar sua ânsia coletiva, e após sua ânsia individual, ou alegria, ou raiva, ou ideologia, enfim, revelar-se. As obras que iniciaram o pós-modernismo ilustram de maneira elementar as definições dele. E, como tudo, um pouco numa via de mão dupla, definiu e definiu-se. E sofisticam-se para expressarem as coisas cada vez mais como são, como surgem. Assim reporto-me a mais um índice de transformação do século XX: Wittingenstein e a crença de que os limites da linguagem são os limites do mundo, do pensamento. A linguagem (todas as artes) que dê um jeito para acompanhar nossas cabeças, independentemente se aplicarmos as artes ao cotidiano, o cotidiano às artes, ou às artes a arte. Em meio aos meios mais especializados isso meio que acontece (como essa minha tríplice utilização para meio – vide vós que a ingenuidade intencional é um recurso, é como meditar) sem querer querendo, muitas vezes.

A atmosfera poética, como falei alguns parágrafos antes (citando apenas algumas possibilidades) é um estado de amplificação: da coisa em relação ao observador, ou do observador em relação à coisa, como supor saber uma verdade do universo. Amplificar é (também) o que a arte faz com a própria arte, como qualquer ciência ou ramo do saber. Picasso amplificou as distorções da tauromaquia de Goya. Para Matisse, o desenho é um registro do gesto, e muitas ações de hoje (ou dos anos 60) são lupas nesse raciocínio – a matéria é um registro do gesto, do que aconteceu. Ou seja, continua-se do que foi feito anteriormente. Considera-se a história (até quando o objetivo é condená-la). É como um time de futebol, como uma pesquisa científica, como a fabricação de um produto, um passando a peteca para o outro blá, blá, blá. Ramifica-se do que já fora antes, como uma árvore que vai da raiz à flor, para não deixar de apelar para mais uma metáfora simples.

Quanto aos arrebatamentos, Gabriel Orozco diz que a arte não pode mais aspirar ser emocionante, pois a Benetton sempre será mais. Aí entendamos emocionante mais para música ao fundo e cabelos ao vento, mais para uma propaganda natalina do Zaffari. Uma emoção gritada, cantada. E o que dizer quando ao amassar uma argila, o próprio Gabriel diz que suas mãos são seu coração? Num movimento simples, sem nenhuma técnica tradicional, uma expressão belíssima. Então é também de sensibilidade, de emoção que falamos. Os trabalhos de Jorge Macchi que trazem as desapercebidas músicas de fundo e os créditos finais do filme para o centro de uma exposição são de chorar baixinho, dentro da cabeça. Faz The Long and Winding Road parecer exagerada (nem é preciso me convencer de Beatles, eu já tenho uma lista de suas 100 melhores músicas quase pronta para publicação).

Ou as garrafas de Coca-Cola de Cildo Meireles: se apenas vermos a fotografia num livro (“arte visual”) elas parecerão ser o mesmo jogo de Warhol. Porém, se nos informarmos a seu respeito, veremos que na contramão da superficialização pós-moderna significada por Andy, Cildo deu um conteúdo à garrafa (encheu-a) e com sua ação criou uma maneira de significar a resistência à opressão. Além da idéia por si só já se valer, ele ainda usa de um mesmo elemento para metaforizar a comparação entre a angústia da sociedade latino-americana e brasileira com a norte-americana. É da consistência que Ítalo Calvino proclamaria, mas não pôde proclamar como queria, para o próximo (este) milênio (plagiei-me daqui). Digo porque talvez não seja só isso (o próprio Cildo critica o excesso de verbalização como característica da arte contemporânea), mas a idéia é redonda.
É preciso então atingir a arte, ou deixar-se atingir por ela, tanto faz o esquema. Quem assistir Vertigo (ou o spoilerano título Um Corpo que Cai ou pior ainda A Mulher que Viveu Duas Vezes) sem lançar o olhar para além da história contada, pode não perceber a reflexão sobre o poder da imagem e a relação desta com o que representa (algo que se vê em A Vila, por exemplo, preguiçosamente acusado de um suspense mal-sucedido) que há ali. Ou os modelos de Robert Bresson, para o qual os atores são apenas referencias para a criação de relações e metáforas: ao ver seus filmes alguns cidadãos saem da sessão a dizer que os atores não se mexem, não têm expressão, são paradões ( certamente eles devem estar no time que diz que “o coringa rouba o filme”).
O prazer da arte é também o prazer da integibilidade, para além de sua força visual. Como na obra Uma Vista, de Cássio Vasconcellos: seria apenas mais um aglomerado de fotos finamente expostas, não fosse a submersão do indivíduo na cidade e a fragmentação dela propostas pela montagem.
É o prazer da elucidação, de perceber o corpo da obra, de conversar com ela, ouvi-la, mesmo quando o que se ouça seja um grito, uma arroto, um espirro.
É chover no molhado, mas saber como se está chovendo. Pois chovendo no molhado criamos uma grande poça, que se acumulou em rio, que vem desde os gregos e antes deles nos homens das cavernas inundando a cidade, e ao mesmo tempo que dá água, desabriga, traz à tona o lixo – mas sempre transforma.
A arte deixou de ser plástica para ser visual, e hoje (há tempos) deixa de ser visual para ser também sensorial, auditiva, presencial, ativa, intelectual, interativa etc não só no seu significado mas também em seu formato.
E se pensarmos no que dizia Picasso, que toda arte é atemporal, pois ela sempre tem de ser de seu tempo, arte contemporânea é um pleonasmo.
Arte é arte, deu.
E, voltando a citar Leonardo, “quanto mais conhecemos, mais amamos”.
Então a arte não dá nos nervos, ela encanta.
Ou encanta justamente por atingir os nossos nervos.

 

 

 

 

 

 

 

 

um beijo, beijing

2008,agosto26,terça-feira às 11:22PM | Publicado em caderno de esportes, crônica, hojes | 3 Comentários
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Põe-se um prendedor no nariz das nadadoras sincronizadas a fim de evitar o excesso de beleza gerada pelos corpos das atletas somados aos movimentos por estas e usando aqueles executados;
Atletas brasileiros gritando porra em câmera lenta.
Um filho de Michael Phelps com Shawn Johnson.
Quem roubou a vara da Fabiana Murer foi o velho aquele fanático que atrás do cordeiro de deus achou o Cordeiro, Vanderlei. quatro anos antes nos quarenta e dois mil cento e noventa e cinco metros rasos.
Anti-dopping nos repórteres: adjetivos anabolizantes: Galvão falando músculos impressionantes por causa da saga phelpiana.
Michael Phelps é o novo Pelé das piscinas Pelé é o Pelé dos gramados então o Pelé propriamente dito que paga para não nadar pois nada nada ou não nada nada.
Cesão tentou cantar o hino: a letra era outra: a língua era a lágrima.
Um dos campos mais férteis para a criatividade é o campo do vizinho: inspirar-se em linguagens diferentes (ou ramos diferentes) da que se vai criar. Uma vez quando era criança ouvi até um dono de joalheria falar que dizia aos seus designers para jamais se inspirarem em jóias para fazerem jóias, mas em obras de arte, em músicas, na rua etc. Pois bem, sabemos disso. O Ronaldinho é NBA; o Kaká, religião evangélica.
O jogo entre Espanha EUA foi equilibrado. Mas ginga, marra, a beleza de jogar – claro que uma beleza popular, apelativa, uma beleza peituda e de grande bunda – somente os norte-americanos têm. Evidentemente que para quem gosta do jogo – como na crítica de cinema, na enologia e tudo mais – qualquer jogo que tenha bons times é digno de apreciação e avaliação, e muitas vezes há sutilezas que valem mais que gritos.
Mas ver os norte-americanos comemorando e muito um título de basquete mostra que o “Dream Team” sempre esteve à frente, mas o Dream Team (este s/ aspas) sempre estará: ele, no meu universo de descoberta pessoal, é um símbolo da magia do esporte nascendo para o meu eu-expectador, o nascimento da Olimpíada: 1992.
Então “a olimpíadas” é isso, é ver TV, é dizer a todo momento que não se tratam de humanos, é querer praticar esportes diferentes.
Daí que surge o panatlo (em vez de triatlo). Ou um tudoatlo. Ou sei lá.
E quem sabe, concomitantemente, lutando pelo recorde mundial, nadar por uns 10 metros, marcar um gol e após a comemoração explosiva adequar-se ornalmentalmente ao sofá e ao travesseiro e mantendo os dedos esticados conforme o código pressionar somente o suficiente o on da televisão.
Eu ia dizer que o nado sincronizado e os saltos atléticos (vara, distância, altura) traziam as mulheres mais bonitas, mas talvez eles tragam as mulheres mais modelos, pois mulheres são tão bonitas que não há como não se render à Cristiane camisa 11 dançando enquanto comemorava um de seus golos e isso evidentemente para citar um exemplo apenas – e para dar outro temos a injustiçada cantorazinha que, segundo a versão oficial, foi dublada por “uma colega mais bonita” ou simplesmente “porque era feia”.
O time da Bulgária, por um exemplo, a moça deu uma barrigada (como se tivesse uma) no bambolê (bamboleiioo, sim, veio-me à cabeça a mesma coisa) e ele foi parar na mão da outra – Just do it, impossible is nothing.
E pessoas tiram o prefixo do impossível e ainda tiram notas ruins.
E cada vez mais impossível, e cada vez mais isso é nada: 100 metros em quase 9 segundos e meio. E o pessoal da rítmica da Rússia fez coisas piores. Enriqueceriam num sinal fechado.
O atleta tem de gostar do frio na barriga, do fato de não poder errar, da adrenalina como tantos falam.
Há uma porção de piadas nestes jogos, que são piadas por si só: vara sumir, o argentino também da vara que foi reto, o cubano que não leva injustiça para casa. E há também o Galvão. Eu não sei bem quando foi que ele virou vilão. Se for por isso, muitos outros na TV deveriam virar vilãos também. Mas só os populares são vilões. Até Caetano já virou vilão. Um dos maiores músicos do Brasil, tão importante quanto (ou mais que) Chico Buarque.
É difícil fazer sucesso no Brasil e não virar vilão (nesta conotação, claro, que é uma conotação leve para vilão). O Galvão conversando com os familiraes é pura comédia, é tão bom quanto o Sílvio Luiz dizendo tá todo mundo segurando o tchan. A diferença é que o Galvão vira um comediante sem intenção.
Só quem ganha ou deixa de ganhar uma medalha (só o dopagem faz perder uma medalha) sabe o que é. Em princípio, há que se respeitar sempre o choro alheio, seja ele pelo o que for.


sentir

2008,julho14,segunda-feira às 8:11PM | Publicado em crônica | 3 Comentários
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Shyamalan, além de transformar árvore nalguma coisa ameaçadora, um professor secundário de tênis brancos em herói, transformou uma equação exponencial em terror.

E tendo saído do cinema acostumado ao medo, reagi com ele ao que seria de candura, de desânimo da alegria.

Pois foi como terror com trilha sonora aguda que rememorei das penas que me deram ontem, em dois momentos isolados da tela escura da televisão para folgar do sol bonito demais do dia claro.

Rapidamente:

Na TVE, o caranguejo pobre movia lentamente as patas e tirava uma formiga, depois voltava e tirava outra, enquanto neste hiato eram dezenas ou dezenas de milhares as que, após descobrirem um ponto fraco entre suas juntas, nas quais a carapaça não o salvava, na alcunha de soldadas lhe raptavam os membros sem lhe raptar a vida ainda.

No Faustão, num quadro de humor, um humorista tinha de atingir um índice num aparelho virtual ao qual chamavam risômetro, e os segundos foram se indo, o índice não atingido, ele gaguejou e pediu desculpa.

Usando da bizarrice e dos gêneros como arma para ambigüidade, mergulhamos numa experiência áudio-visual sensorial (ecos do domingo passado) de arrebatamento, seja pelo terror, seja pela esperança. E embora ríramos, embora nos comovêramos, pagáramos e batemos palmas também para sentirmos medo. Tudo é do espetáculo (no melhor sentido da palavra, no sentido de aplaudir em pé num teatro).

Mas do medo extrai tudo contíguo a ele: assim a coragem, a imperfeição. Nas tais transformações que falava, Manoj Nelliattu faz com que as esperança e pessimismo brotem da mesma terra.

Então sentir medo é bonito.

E de ver não ser o que se é por importância tanta a alguma coisa – gaguejar, ficar nervoso – como de ver algo só e vivo acompanhar a própria morte e mesmo assim tenta escapar, numa certa inocência, numa certeira impotência.

E por coisas assim a piedade normal e estranhamente nos repleta o espírito.

E tanto é espetáculo que a imagem isoladamente de um caranguejo submetido a um ataque coletivo de formigas é de fluidez tão harmônica que bela, se nos despirmos da amizade que fazemos com o caranguejo.

Então se a apego inútil enfeie a música do espetáculo, talvez seja um mal este cuidado, pois o mundo tem de ir para frente e aos vencedores as batatas.

E talvez assim se encha o peito para que dê alívio a esta pena que se dá, as notas altas de suspense, e o coração precisa ser mimado, sentir-se útil, quando o resto todo sabe que aquilo é assim mesmo.

Mas deixemos a selvageria aos animais.

Aplaudamos também os que fracassam.

Que no fim são espetáculos todos. São nomes (fracasso e sucesso, medo e coragem etc) que a gente fica dando. Que a gente fica girando a mesma moeda. O coração só se enche e se esvazia, e algumas coisas aceleram, desaceleram ou impedem este processo.

Bonito é sentir.

rapsódia dominical atrasada de atraso justificado

2008,julho5,sábado às 2:27PM | Publicado em crônica, diário, hojes | 1 Comentário
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n

a Eliana (a dos dedinhos, a de se pôr a mão inteira, as palminhas também) de domingo último (que já não é mais o último, ao longo do texto explico) um cão adestrado, que são cães que não comem carne, somente ração, não no chão, mas na mão (as paupérrimas rimas – ou riquíssimos ecos – são para reforçar o tom de sempre que se tem nisso, poema pobrão, pobraço – e probidade, aproveitando a deixa, que se tem nisso), a fim de que equivalha a um prêmio. Por outro lado, a lei 9.503, o CTB, Código de Trânsito Brasileiro, alterada pela lei 11.705/2008, não determina que se dê dinheiro ou que se dê isenção (e normalmente não se dá nenhum dos dois, no máximo um descontinho no IPVA antecipado) para quem sempre foi certinho, para quem, quadrado, nunca bebeu uma gota de álcool porque ia dar uma volta na quadra (à esquerda 4x ou à direita em igual nº) para secar o carro. O fato que a única coisa que eu sabia que fazia as pessoas não beberem era o antibiótico. Agora esta lei.

No domingão do Faustão (paupérrimas rimas calham aqui também) tigres que não comem carne, tigres domesticados, que são tigres de Kanchaburi, que são tigres cuidados por monges, se é que são os mesmos constantes na revista Discovery Magazine de outubro de 2004 (um ano que durou mais de um ano para mim) edição nº 3 (3 de outubro eu nasci, mas não de 2004, pois teria 4 anos ou este ano faria 5 na data dita, o que me tornaria um fenômeno do crescimento) por cuja posse paguei oito reais e noventa centavos (R$ 8,90). Digo isso porque eu via o imortal se firmando como líder do campeonato num aparelho televisivo, e isso dos tigres aparecia no outro, pois estava num bar por não ter querido ir ao campo naquele dia, e bares têm mais de uma TV, e distribuídas em mais de um canal pois nem todos são gremistas, e nem todos gremistas querem ver o jogo do Grêmio. E vi porque tigres são fascinantes, fascinantes, são cânceres da natureza, então digo tudo isso pois assisti à matéria sem som, e com a atenção (tensão não houve, pois os tigres estavam dentro da televisão e o tricolor vencia fácil) permutada entre uma TV e outra.

No ZH, Marcos Rolim mui oportunamente falava da vergonhosa demissão do motorista do Palácio Piratini. Vide vós que andei pelos veículos populares (não me refiro aos carros mil, ou carros mis, se houvesse plural neste mil-adjetivo) e sim a isso que me referi (TV aberta, jornais de maior circulação em suas terras).

Em suma, aqui são episódios de domingo último, dia vinte e dois de junho de dois mil e oito (22/06/2008), portanto um texto atrasado, mas o tempo me não importa muito, não nesse sentido, de sucessão, de ordem, de medida, de mensurar informações, pois elas cá estão ainda. E se me proponho a falar do ônus da ordem nada melhor que me livrar dele.

E finalmente o atraso justificou-se justamente por causa dele: hoje, já quinta-feira (que devido a novo atraso não é mais hoje, mas sim semana passada, e agora, neste momento, terça, dia 1º de julho de 2008), já passadas mais de 96 horas do domingo (e agora horas e horas), antes de sair de casa ouvi uma reportagem que quem via era outra pessoa a respeito de uma rosa que nascera espontaneamente sem espinhos em Fortaleza.

Uma rosa sem espinhos.

Chamam-na Iracema, homenagem à sedosa pele da célebre personagem de José de Alencar (s/ “de” é o Ilmo., ou V. Ex. a., ou ainda “apenas” Sr. Presidente em exercício quando o Lula não está, ou simplesmente o vice).

É certamente umas das metáforas-chave, essa da rosa ter espinhos.

E neste caso ela não tem. Uma subversão-chave, diria, com propriedade de quem disse o que agora mesmo disse.

Era uma verdade, uma regra quebrada. E neste caso, a regra quebrada metaforiza a regra instituída: tirar os espinhos da rosa.

Voltando àquele domingo, no domingo meu, de vida privada, meu avô, o seu (não seu de teu, seu de Sr. (ou V. Ex. a., ou Ilmo., tanto faz, tipo seu Madruga) Marcolino, disse (o que era para ser epígrafe deste):

“Se eu bebo um copo de vinho não me muda nada.

Agora, se eu tomo um tanto assim (indicou com o dedo o equivalente a menos de 100 ml, acredito) de cachaça, não é que me dê sono nem nada, me dá coragem.”

Seu Marcolino

Meu patrão na repartição disse o seguinte na segunda seguinte àquele domingo:

“Eu não gastei um centavo este final de semana (isso num contexto que, mais que dar a entender, dizia (entanto sem todas as letras) que foi porque teve de dirigir e portanto não bebeu). ”

Meu patrão na repartição

Vide vós as vantagens da vida regrada. Do cão não comer carne.

A colheita da lei (da ordem) já aparecendo. E da ordem para o progresso, como diz a nossa bandeira, ou pelo menos a bola (esfera) azul que há no meio dela, segundo a qual eles, a ordem e o progresso, podem ser mesmo considerados uma dupla, enfim, dela para ele é um tapa.

Já vislumbro novas leis: a proibição de quaisquer tamanhos (e não somente a mini, que por sinal nem é proibida) de saia para evitar brigas em bares, para evitar ciúmes e conseqüente atos violentos e conseqüente homicídios culposos e/ ou dolosos.

A proibição de garotas (algumas) gostarem de rapazes rebeldes (alguns), a fim de evitar que rapazes empinem motos, bicicletas, pipas (o perigo da rede elétrica), executem saltos mortais em piscinas (perigosíssimo) e tantas outras façanhas apaixonantes dignas dos mais interessados e interessantes olhares femininos.

É certo que a estética canina carrega consigo o sacrifício, vida de cão, underdog, cão do caralho, eu não sou cachorro não, e o sacrifício remete a treino, que talvez seja a palavra que eu deveria ter usado, claro, sacrifício para alguns, mas confinamento de atividades num modo geral. Então o cão do lobo foi-se disciplinando (uma miríade de anos treinando, até na sua indisciplina, de cometer erros, aproximando-se dos humanos e à imagem e semelhança (em tentativa) desses) até tornar-se cão. E os cães são potencialmente piores que crianças, são piores até que a Casadovinho (tema a ser abordado em seguida), e o que os faz ficar bem é o cumprimento das ordens, é o que, oprimindo-os, torna-os melhores.

E além disso a lei incentiva o transporte coletivo, o táxi (uma coisa meio NY), posto que ninguém quer ser motorista, especialmente conduzir ébrios no próprio carro sem poder se tornar um deles – nem a opção de, na impossibilidade de ir contra, juntar-se ao inimigo. E talvez o mesmo faça com a boêmia local, ir a festas a pé no próprio bairro, até o momento de proibirem andar na rua bêbedo (ok, está foi uma ironia exagerada e, portanto, devido à semântica dessa palavra, desnecessária). Já não se bebe mais em estádios no RS, e quase tivemos ano passado Grenal campo único, quase vira no seio de seu espetáculo maior só GRE ou só NAL. Pois sim, se não bebermos quando dirigirmos não haverá problemas.

Algumas abstenções sempre fizeram bem aos budistas, aos militares, aos abdominais definidos entre outros felizes exemplos.

Mas há ossos do ofício. Há mesmo mortos do ofício.

O rei do Chapolin, o rei que ganhou a roupa que só os inteligentes podiam ver, que em verdade me fez lembrar o Hans Christian Andersen, que em verdade tal rei, o Rei Nu, era seu, e fora adaptado por Roberto Gómez Bolaños, assim como o foram Chaplin (ou melhor, Carlitos) e Peter Sellers (ou melhor, Inspetor Jacques Clouseau), por isso, sem desmerecer o grande trabalho do Chave del Ocho, eu prefiro o Carlos “Quico” Villagrán, que aliás fez, e muito bem, o papel do rei pelado, pelado de inteligência, inclusive, pois não via o tecido, ou astúcia, pois não percebeu a fraude, porém, voltando ao que dizia, penso que não se tratava efetivamente de tal rei, pois o monarca que eu tentava lembrar e lembrei o rei nu, era em verdade um rei que fazia uma lei conforme as coisas sucediam e é bem famoso justamente por este hábito e me ocorreu que como eu confundi talvez confundira-se o Hans Christian Andersen ao pensar que o rei de Roma cuja roupa o rato roera era o rei da roupa fraudulenta de sua imaginação tão fértil que teve esta imagem semeada como se idéia dele mesmo fosse.

Uma colega minha cujo nome não citarei mui oportunamente me informou que eu deveria trocar meu carro, o qual eu adquiri em 2006, apesar de ser modelo/ano 2005, e mesmo na concecionária e 0 o quis assim, atrasado, pois era o modelo de minha preferência, enfim, o meu, o Trovão Azul (homenagem a um peixe beta morto pela sua esposa na infância em vista da nossa ignorância em relação aos hábitos acasalares de tal espécie), já teve seu 2º aniversário comemorado, beira os quarenta mil km, já tem suas marcas, por isso tudo oportunamente me disse a inominada colega que ano que vem vem o novo modelo, que na Europa já seria velho, ou ao menos sabido, mas sabido, no outro sentido, é o meu, que sabe me deixar o levar aonde eu quero quase automaticamente e já esconde as coisas que eu esqueço quase como se soubesse isso também. Virão novos Clios (que também é uma das nove musas, aquela que carrega um moleskine escrito Thucydide na capa, que inventou a guitarra, e que pode bater no peito de dizer eu sou a musa da criatividade e da história – essas duas realmente andam muito próximas, se pensarmos na invenção de histórias, bem como nos atos que fazem alguém participar da versão real da história, aquela ciência humana, no caso). Sim, novos Clios virão, mas não novos trovões, pois trovões são meio que raios, e portanto não repetem seus fracassos, sucedem num lugar só, seu sucesso muito se deve a seu fracasso, então, a este tipo de fracasso sempre inédito, então novos trovões não vêm, ou o ditado está errado, ou foi ditado errado.

Se eu acatasse o conselho dado (e não vendido) pela minha colega, isso me deixaria mais rico, mais avançado, mais progredido – tudo o que uma nação ou qualquer lugar que mantenha uma bandeira gostaria de ser. E me deixaria sem meu Trovão.

Trovão é chamado também o rugido dos tigres.

Mas a quem e para que ruge um tigre vegetariano, ou onívoro, ou mantido a rações, que seja? Que, nascendo, tendo sido planejado para matar, não mata?

Um tigre sem garra é uma coisa triste demais; porém um tigre com garras que as olhando se pergunta para que as tem talvez seja duas vezes mais triste, ou talvez pior ainda o tigre que caça bolas e nem sabe que poderia estar vivendo do que brinca, estar caçando um antílope, ou até um búfalo, ou até um urso, com a emoção de ter de vencer para comer, ter na caça a vida em vez do hobby, e este é o caso mais triste destes três tigres tristes e porquanto seja três vezes mais triste, já que antes foram duas e simples.

A Amy Casadovinho está p/ lá da casa do caralho, ou para lá de Bagdá, ou Marrakesh, enfim, isso segundo a imprensa, e me surpreende até que haja surpresa nisso, que isso não é novo, e os jornais chamam-se NEWSpappers, embora em português seja Jornal (diurnale, de diário – e, sabemos, nem todos os dias são diferentes). Enfim, novamente, a moça de voz tão bonita (ou a voz de uma moça tão inquieta) faz coisas que a maioria das pessoas não acha bonito, mas para ela creio que seja, senão não faria. O prazer sempre é bonito para quem o sente, mesmo que por fora possa parecer feio ou ridículo. “Deixa ela (sic.) quietis”, diria Mussum, ou beberia mui felizmente da sua bebida (hic)(de soluço). Coisa que nenhum dos dois deveria ter feito tanto (e tampouco Vinícius, e todos os exemplos que vêm em flash nas nossas cabeças), mas talvez se não tivessem feito não falaríamos deles agora, ou daqui a pouco, que seja.

A (in)conseqüência da vida selvagem, do tigre comer carne.

Sua ordem é a selvageria. É com a selvageria que os animais se organizam melhor do que nós, a menos que nosso caótico sistema seja um organismo organizado se visto de fora, sem as sensações de quem o sofre por dentro, stress possivelmente dividido pelos animais também dentro de seu sistema que externamente parece perfeito (como dizem, a natureza é perfeita).

Se a ordem comum dominasse a Whinehouse talvez ela prendesse sua poderosa voz, seu harmonioso trovão. Muito do que ela faz é proibido. Mas a quem quiser lhe ordenar, ela ruge:

No, no, no.

Não, não, não.

Na, na, na,

ni, nã, não.

Havia um velho que sempre passava o dedo no gargalo da garrafa de azeite de oliva. Sua esposa igualmente sempre dizia que era uma falta de educação para com os outros presentes à mesa. E é em defesa dele que eu falo um pouco – a coisa brechtiana de margens opressoras com caras de santinha.

Como o punir?

Se ele faz o que lhe é de instinto fazer, exerce seu prazer.

Tire as crianças da sala, não mude a sala por causa delas.

As crianças que sejam protegidas. Os não-fumantes que fiquem nas salas fechadas. Os incomodados que se retirem.

Porém no escuro de cinema eu ainda mato um mastigador exagerado de pipoca.

Então o chupador de azeite de oliva incomoda.

Como o punir?

Aí vem a lógica do velho do saco. E quem quiser o desafiar que desafie.

Controle da selvageria tem de ser moderado, para que a selvageria se modere espontaneamente, sob pena de, oprimida, ela, como uma mola, voltar-se mais e mais forte contra quem a impede, contra quem a impele não poder ser.

O bom senso cuidaria disso. Mas no Mc, se sai um pedido errado, eles jogam no lixo, jogam dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebolas, pepinos e pão com gergelins novinhos direto no lixo. Do contrário o pedido errado seria objeto de ocorrência intencional com fins de benefícios ilícitos, do tipo levar um nº 1 grátis, ou uma batata média, ao menos. E eu aposto com vocês que ia dar muito. Infelizmente. Então nosso bom senso precisa ser censurado, sob pena de virar bagunça. Ou espinhos, talvez.

Precisamos da lei. Evidentemente. Precisamos de punição severa para quem se torna uma arma letal no trânsito (ou em qualquer outro lugar). A parte da tolerância zero não é boa, aliás, a tolerância zero à parte – tolerância zero é piada, e piada da cômica personagem do cômico finado Milani.Tolerância existir sempre é bom, o seu excesso é tão ruim quanto qualquer excesso, e sua falta é tão ruim quanto qualquer falta.

Alguma alcoolemia ao trânsito não nos fará mal. E querem resolver com a lei a várzea que era até agora. Pouco puniram indivíduos realmente assassinos em carros com o rigor que vem sendo punidos os copos de cerveja, as taças vespertinas de vinho que fazem bem à saúde e os brindes de champanha.

A minha colega é super legal, mas como ela vem se meter na minha vida?

Como esta lei da porra me aterroriza?

Não mais (talvez) poderemos tomar uma e voltar para casa devagarzinho, quase parando, tomando cuidado.

gancho = metáfora : trovão tigre três coragem outubro (revolução) proibido atraso mudar ordem progresso atraso bola opressão tolerância selvageria flor nascida espinhos rosa domingo tv regrada quebrada erudição etc

Eu pensava no fim do (daquele, agora) domingo no poema I, 3 dos Sonetos a Orfeu, porque o havia lido, na rima ABABCC (na tradução de Augusto para o português BR, a língua brasileira, que o próprio Augusto vem ajudando a construir) vs. ABACBC (original de Rilke), e na materialidade, ou somente no movimento mesmo, das palavras próximas alento/ vento, Verrint/ Wind. E num poema quase seguinte a este, o I, 11, da conjunção dos astros e alegria por crer na ilusão. “Vem que a felicidade mora aqui, tudo é ilusão” cantaram também no domingo popular da televisão aberta do nosso Brasil, Didi e Dedé, juntos novamente, como a ordem e o progresso. Agora falta só o Dadá Maravilha, o Dodô artilheiro dos golos bonitos e algum Dudu por aí, e daí teremos um quinteto vogal, que poderá ser vocal ou de qualquer outra atividade.

E no fim da grade televisiva comercial daquele domingo um programa local o Tele-Domingo (o qual há tempos não assistia por me deixar depressivo ao lembrar-me da segunda-feira vindoura e conseqüente tédio incutido nela por causa de um sistema rotineiro de aquisição de dinheiro), que, aliás, talvez seja o que de melhor a RBS nos dê, dava uma reportagem sobre eutanásia animal, e eu penso que o cão pela incondicionalidade com que se entrega é realmente o melhor amigo do homem, e não poderia o Uísque ser sua versão engarrafada, posto eu ter pensado (e citado – o nome, não alguma frase) em Vinícius lembrei-me disso, pois antes disso o homem é o melhor amigo do Uísque, até por ter lhe dado a vida ao lhe libertar dos grãos, o contrário do que fez com o cão, de cujo qual privou-lhe a selvageria (mas talvez tenha o libertado do lobo e talvez o uísque também seja incondicional).

E parei em amigos pois falávamos (se considerarmos isso uma conversa) em cães, e falei (ou falamos, então) em Didi e Dedé, Quico e Chaves, amigos que foram e voltaram, que são mas não foram muito tempo e hoje aqui no centro de Canoas cantavam a música Amigos para Sempre naquela versão brasileira, aquela da primavera ou qualquer das estações, e isso, hoje, 4 de julho, ajude a justificar o atraso. E o atraso é também um recurso conceitual que lanço mão não espontaneamente mas me apropriando do acaso como Pollock talvez tenha feito da tinta e tantos outros exemplos, pois a maioria do que aqui escrevi relativo à lei seca no trânsito foi no calor da hora, e isso permanece atual, há notícia todo dia, é a Isabella Nardoni do momento.

E o Hababaca, fora a coisa de nos trazer o drástico de Bufallo Bill para nossos tempos, fora a coisa de mostrar que a realidade da morte não é tocante, pensemos no exemplo do cão: o cão não se sabia preso.

Talvez não saibamos o quanto estamos presos.

Ou não valorizamos o saber de estarmos vivos. E livres, do que se pode dizer ser vivo por excelência.

Então é preciso viver urgentemente. Ou libertar-se para isso, também urgentemente.

Transformar a pressa em prática, em coragem continuada em vez de pessimismo adquirido, ou invés mesmo, pois isso semanticamente simboliza o contrário (ao invés de ir, voltou, descer, subiu) para poder desamarrar-se, para não morrer.

Pois amarrados morreremos. E morremos aos poucos.

O que faz do ser humano ser mais humano?

O ser humano vem sendo domesticado.

O cão é mais cão quando é mais lobo ou quando é mais gente?

O cão é cão porque não é completamente lobo e porque não é completamente gente.

O ser humano para matar ou para criar uma obra-prima desvia-se do mesmo modo do comum.

Abster-se do comum para se extremar. Abster-se do comum imposto.

E ainda assim humano.

E emerge do coração uma necessidade de erudição, de se livrar da TV aberta, da janela aberta que nos encerra nela. Uma jovem nua para um jovem padre. Uma doce flor aflorando bonita e cheia de adjetivos e pleonasmos. Para verter o processo contrário, e resgatar verdades da profundidade atemporal e não imprimi-las em superfícies sazonais. O sacrifício pela beleza, nem que seja uma beleza que sirva a mim mesmo, somente, o sacrifício de criação.

A Arte é uma ferocidade.

A maneira de achar felicidade é a ferocidade de cada um.

Du mußt dein Leben ändern.

A abstinência faz dos cães mais cães e dos tigres menos tigres.

sobretudo sob nada

2008,junho19,quinta-feira às 8:19PM | Publicado em crônica, femme, hojes | 1 Comentário
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4ºC em Canoas anteontem. 4 “cê”, 4 centígrados. 1, 2, 3, 4, mais nem um. Lembro-vos que a água (aquele líquido que bebemos um pouco para ñ morrer e muito para viver) congela, vira pedra, vira em cubos uma ferramenta para gelar a própria água com quatro pontos menos. Imaginem no Chile, nos Andes, na Antártida, em Dublin há uns meses atrás.

Os poucos Celsius mudam a paisagem, mas, no caso de Canoas, sob cujo céu durmo e muitas vezes acordo, sobre a qual não neva (mas já nevou na década de 50, segundo os velhos) muda mais a paisagem vetorial, que são os seres, vivos, obviamente, mas também porque não os mortos que talvez durem um pouco mais (?).

Ex.: mulheres. Um padrão se determina: põe-se mais roupas. Umas aproveitam para ficarem ridículas, outras para ficarem capas de revista. Isso se se falasse como o povo pensa, pois é o que os olhares (refiro-me aos olhares de intenções instintivas, ditas más, e não àqueles que tiram das coisas outras coisas que não estão tão evidentes (sim, a poética etc.)). As “ridículas” se parecem crianças, bebês cheios de roupas, empacotados com o CUIDADO FRÁGIL que nem na propaganda antiga. E não raro usam moletons do Mickey falsificado (ou moletons falsificados do Mickey verdadeiro).

E assim elas ficam bonitinhas (que não é feia bem arrumada como dizem, é bonitinha, um bonito não tão urgente de consumação, ou ainda uma consumação homeopática).

Então não só uma questão de invólucros: a beleza está também na disciplina de se erigirem indefectíveis e assíduas numa manhã que começaria só ao meio-dia de acordo com a vontade dos cobertores (um acórdão, pelos comentários hoje foi foda sair da cama das pessoas); há também na insegurança em não sair mais desarrumada, na noção estética da escolha das roupas ou ainda na manipulação das tendências captadas em revistas ou noutras moças. Ou está justamente no ponto contrário, no desprezo a isso tudo, ou numa esfera ainda mais relativa na boa ou má sorte da exceção: não só a de quem não teve tempo e saiu um dia com um ramelo gelado no olho ou um ranho congelado no nariz, como também a da virada para lua de quem resolveu sair bem para arrasar (a partir de) hoje (no caso, naquele dia, dia 17 de junho).

E, claro, sobretudo no que está sob todas as roupas, e em como estas todas sobre ela influenciarão na noção que se terá sobre ela quando ela estiver sob nada (s/ sobre ela que ia ficar bagaça a fu).

Uma orelha não pode ser alterada. E poucas coisas o podem numa mulher, especialmente sem um intervalo de tempo devido, que é o existente entre vê-la com e sem roupa, geralmente. Nestes dias frios, a nudez é como a menor boneca de uma boneca russa, abaixo de vários outros modelitos que se revelam conforme o dia fica menos frio.

Sob nada elas seriam o que são. Sob nada que elas podem guardar surpresas. Pouco muda, neste caso (nesta paisagem), devido ao estado atmosférico: uma veia, uma coloração mais ou menos rosada ou vermelha por causa da temperatura. O que muda é a temperatura mesmo, o humor, e aquelas coisas que os olhares (não os instintivos, não o do pessoal que olha as bundas como eu deixei subentendido com a palavra instintiva umas linhas (quiçá parágrafos) acima) captam. E, voltando ao visualmente, tudo o que ela fez e escolheu antes, pois a nudez só fica nua depois de se despir do que provoca, do que a faz se fazer necessária.

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a waltz for a night

2008,junho4,quarta-feira às 10:30PM | Publicado em alt+3 ou ♥, crônica, critica-se | 9 Comentários
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Spoilers, spoilers p/ caralho (mas nada que atrapalhe quem gosta de cinema).

1. Before

Em tudo (e no cinema, que faz parte de tudo, como tudo) há partes que resumem os todos. A mão pode resumir um corpo todo; um dedo, um corpo todo; a íris, idem etc. Ou o código genético, para ser mais científico, menos verborrágico e menos repetitivo. Neste processo metonímico, um fotograma (como Rypley atrás de um espelho que reflete Dickie, ou Matthew substituindo Theo também no espelho em the Dreamers, a anamorfose na ponte em Indiana Jones e a Última Cruzada, e outros tantos exemplos mais eruditos), um plano (skatistas-ícaros em câmera lenta voando até a falência em Paranoid Park, como muito bem observou Luiz Carlos Oliveira Jr.), uma cena, um diálogo ou qualquer outro elemento fílmico pode resumir o filme todo. Em Before Sunrise, é uma história que Jesse conta a Celine, sobre o arrebatamento ao ver um bebê nascendo, sobre o encantamento ao o ver respirar pela primeira vez vs. a constatação de que, um dia, ele irá morrer: uma visão inocente (semelhante à que o gato Che de Celine tem diariamente de seu jardim), portanto pura, e por isso justa com ambigüidade das coisas: deleitosa, mas desde sempre melancólica por ser sabido seu fim. As duas verdades gritantes da vida (a própria vida (milagre) e a morte) sob um olhar puro.

Eu sempre havia ouvido falar muito de Before Sunrise. E pensava (mas não com tom desafiante) no que o filme poderia ter de mais. Afinal, visto por fora, pela capa do DVD (ou pelo cartaz, para quem teve a boa sorte de assistir num cinema) são somente duas pessoas conversando.

Falarei dos motivos depois, primeiro do impacto: para ficar somente no cinema (embora tudo pertença a tudo, repetindo sempre) vale lembrar a anedota que Hitchcock contou a Truffaut, que me não lembro se li um trecho na livraria ou se li num livro de Mamet (mas com certeza ninguém me comentou, pois eu li), ao falar sobre roteiros relativamente à direção: ele conta de um homem que sonhou um filme que lhe parece fascinante durante o sono e ao acordar e anotar a história do sonho recém sonhado escreve apenas “homem se apaixona por mulher”.

Então se me fez intuitiva e subitamente óbvia a consistência que Ítalo Calvino proclamaria, mas não pôde proclamar como queria, para o próximo (este) milênio.

Há uma série de elementos quase independentes que o cinema combina. Ele acontece devido mais à combinação e menos aos elementos em si (e digo todos os elementos: produção, elenco, fotografia, orçamento, impacto nas revistas de fofoca, argumento, roteiro etc.). A lógica acadêmica (acadêmica no sentido de Oscar) de um todo ser bom e suas partes serem destacáveis (melhor fotografia, melhor som etc.) para o qualificar (própria da indústria (linha industrial) nalguns casos) imita uma lógica que se usa na vida mesmo para diversas escolhas pré-estabelecidas (a famosa “preferência”), como gostar de morenas, ou loiras, ou ruivas, ou magras, altas, tímidas, ricas, inteligentes etc. Porém se sabe não haver fórmulas: o processo de estimação é mais sofisticado.

Evidentemente muitas vezes é possível enumerar os elementos que chamaram a atenção por cumprirem um padrão predileto. É como quando se conhece uma moça (ou um moço, para as moças, ou para os moços que gostam de moços): às vezes se acha o que se esperava, mas noutras um dos pré-requisitos para arrebatar é surpreender.

E para se surpreender os padrões não funcionam. Ou funcionam, justamente por oprimirem o quadro da surpresa, como se empurrassem molas. Exemplo: para alguns a música seria dispensável no cinema (e muitas vezes ela é puro enfeite mesmo), para outros até o som seria dispensável (Vinícius de Moraes defendia que a única forma de cinema era o mudo quando era crítico, apesar de ser amigo de Orson Welles), como o pessoal do Dogma 95. Mas como dizer que cinema não pode ter música, se num filme como O Quarto do Filho, de Nani Moretti, o seu uso estabelece uma significação narrativa que, tal qual um canhão de luz num teatro, foca o estado subjetivo dos fatos narrados, complementa a história?

Então pode haver um esquema para cada idéia. Então a fotografia, o roteiro, até a montagem (que seria o elemento mais cinema do cinema, segundo Kubrick, Glauber e seu mestre Eisenstein, para ficar só nos populares e paradigmáticos) subordinam-se ao filme como obra (conceito). As coisas se estendem de maneira honesta a partir do conceito (ou idéia e/ou anseio) que as lançou, como numa geração espontânea, ou, contrapondo esta idéia e inda assim parando no mesmo lugar, o cumprimento de um destino: elas arranjam seu espaço e tornam-se o que são.

E este é o caso deste projeto. O casal se afirma como idéia um ao outro; e o(s) filme(s) afirma(m) a idéia de casal, o encontro das duas idéias anteriores e a reação delas em tal estado – tudo então é justo com isso, os planos-sequência, os enquadramentos, a música, a montagem – uma intervenção mínima para os registrar.

Um amante se tornando como tal é um processo de existência paralelo. Os amantes vivem num mundo próprio, de espaço e tempo particulares, definidos pelo movimento de seus atores, que são vetores que delimitam tal universo. E todos estes universos incontáveis que existem no mundo são belíssimos. Os amantes todos vivem coisas que precisariam de filmes para registrar. Mas bastaria uma câmera. Então aí está o fino filmar: criou-se uma realidade para a registrar, com as intervenções justas. O cinema (um possuidor de câmera(s)) simulou e registrou.

Então, cinema puro.

 

2. Sunrise

“Eu me confesso meio incomodado de estar em casa véspera de feriado, mas este filme salvou-me”, assim começava meu esboço inicial.

E tal frase me veio à cabeça na cena já perto do fim, que há um homem tocando cravo, que eles vêem pela janela: é cedo, ele está só, e, por alguns segundos, ele fica só no fotograma, ganha seu espaço único na montagem: aquele momento é dele: a arte repletando todo o espaço, a arte lhe bastando por valer por tudo.

Emocionei-me. Então me perdoem as elucidações ingenuamente didáticas, tais como as interpretações simbolistas, as considerações extra-filme, o ponto de vista de espectador. O Amor é Filme, de Lirinha, é o que, numa linha menos reta, me vem à cabeça.

Pelo conteúdo cênico, esta foi a montagem ficcional mais próxima que eu já vi da inalcançável realidade de se estar embebido numa atmosfera de descobertas, de se conhecer e ser conhecido por outra pessoa, de se maravilhar com as combinações e contrastes, e de perceber estes todos combinações e aquelas todas contrastes; de uma levíssima condição de se exercer a criatividade quando ela vem, de exercer-se como se é, de fazer piadas após declarações de amor oblíquas, ou ubíquas, por estarem presentes em cada replica e tréplica, amalgamá-las por vezes, de se não ver o tempo passar quando ele passa mais que antes e menos que depois.

Lembrou-me algumas coisas vividas e certamente a outros também.

Pelos referenciais, a história pontua uma mudança de era (já no início do filme Jesse fala sobre a idéia que teria para um programa, algo semelhante a um reality show, Celine replica dizendo-lhe que simplesmente acompanhar a vida real seria muito chato – operação que acabara de se iniciar no filme) – uma era que passa a se voltar para a realidade como tal, sem idealizações, o “fantástico” do cotidiano.

Porquanto é por excelência o conto de fadas contemporâneo: heróis de dentes não tão brancos.

Das coisas como são (podem ser). De um lirismo mais pé atrás. Uma linguagem mais Jorge Macchi e menos Oliviero Toscani.

Menos Romeu & Julieta, mas rivalizando em intensidade com eles. Em intensidade e em teor: estão ali a magnificência, o mistério, a ambigüidade e todas as coisas cabíveis ao amor, mas demonstrados num cenário crível, cético, ordinário: contemporâneo, na conotação de ainda presente, que ainda não morreu: na conotação de vivo.

Um encontro ao vivo.

Registrou-se um encontro.

O encontro entre o garoto de 13 anos que sonhava em começar a fazer as coisas e a senhora no leito de morte, para a qual a vida é uma lembrança revivida – ambos olhavam para o meio do caminho, mas o americano não se vislumbrava sair do início; a francesa já se sentia no fim.

Um encontro entre a França e os EUA (muito mais rico que em The Dreamers, por exemplo, a despeito do apelo visual e referencial daquele filme). A França encanta-se, romantiza, critica, protesta. Os EUA são mais práticos. O poema dado pelo mendigo e a quiromancia, após uma atmosfera mágica que nos leva a crer que ambos creram juntos por alguns momentos, são investigados racionalmente por Jesse, contrapondo a paixão com que a francesa se lança: ela supõe magia; ele, um processo cínico.

E assim eles vagam como pontos de vista personificados sobre questões das quais não se pode estabelecer uma verdade.. dão dois pontos de vista para os mesmos fatos. Compõem ambigüidades.

A vida (num de seus estados extremos) sob olhar puro.

Também o velho e o novo mundo, o feminino e o masculino, o oriente e o ocidente (se pensarmos geograficamente é como os países se relacionam relativamente um ao outro).

Entanto um encontro como o símbolo Yin e Yang, com um com um pouco do outro também (Jesse não resistiu à roda gigante).

Encontram-se as desconfianças, as necessidades, a bagagem pessoal de cada um, e uma intenção mútua e abstrata de continuar, que se afirma acima de tudo isso, punge como desejo, solicita realização.

E, por fim, um final (embora não no fim mesmo) comparável ao final de Sociedade dos Poetas Mortos, ao seu ritmo, seu ritmo de afirmação de rebeldia em formato clássico; comparado ao final de Cinema Paradiso, ao seu ritmo, como ode à memória e saudade conseqüente, como ode à inocência irrecuperável; comparável ao jogo de cinema, de metalinguagem, de brindar o espectador pelo seu poder de saber mais que as personagens sabem ou manipular seu ponto de vista, tais quais os finais clássicos de Cidadão Kane (mesmo que a questão Rosebud seja um jogo lúdico – e também por isso virtuoso – ante toda o mérito formal) e Vertigo (de pensar a imagem como fonte de verdade e a partir disso tornar ambas relativas); ou comparável ao impacto som x silêncio, no sentido de contraste de formas, como o epílogo primeiro sensorial e em seguida completamente silencioso como não o foi o Filme Falado de Manoel Oliveira (a barbárie é som, silêncio; a civilização, palavra).

Quando o casal despediu-se (au revoir/ later) despediram-se de um tempo, um tempo que permitia cada um levar apenas lembranças e esperanças (como a foto não tirada por Jesse). Fosse depois de 1995 (a era que terminava), salvar-se-iam num mundo virtual, em MSN, blogs, correio eletrônico, e-mails, Skype, MySpace, Twitter, Flickr… talvez se inseririam num meio-termo ausência/presença, subvertendo a prova de resistência do tempo à chama, deixando-a apagar aos poucos, por não a alimentar nem a deixar consumir-se.

Salvar-se-iam talvez no mundo virtual, ou se matariam como acabo de dizer.

Salvar-se-iam do mundo que lhes deu apenas um dia, dum mundo de sonhos impedidos por aviões, trens, faculdades, residências e dessas coisas desse mundo ao qual se convencionou chamar real.

Por tudo isso, Before Sunset tornou-se uma questão mitológica, tão esperado quanto O Retorno do Rei pelos que usam orelhinhas de elfo para ir às estréias com filmes de elfos.

 

3. Sunset

c: Maybe we should meet here in five years or something.

j: All right, all right, five year- Five years! That’s a long time!

c: It’s awful! It’s like a sociological experiment!

“L’absence diminue les médiocres passions, et augmente les grandes, comme le vent éteint les bougies et allume le feu.”

François de La Rochefoucault

São-nos apresentadas as imagens dos lugares de Paris por onde eles passarão, invertendo o processo do filme passado.

Logo essa inversão de fluxo consecutivo eu concluo se dará também na história: se antes houve a construção primeiro para a lembrança depois, agora a esperança antes para a (des)construção depois.

(Prematuramente) pensei: a realidade irá os enfrentar e eles perceberão que o que tiveram foi singular por ter surgido de uma situação singular, pois o laço que os uniu por algumas horas brotou de uma atmosfera absurda em cuja somente qual sentimentos utópicos podem brotar (lembrar Romeu & Julieta para ser mais clichê). Seria a situação, não eles.

E a realidade fatalmente os enfrentou e a tal inversão fatalmente estava certa.

E eu errado: they’re for each other, ils sont fait l’un pour l’autre.

Esperança antes, construção depois. Sem des.

Eles já se sabiam, eles já se esperavam. E se concluiriam.

Eles (e consequentemente o filme) retornam ao encontro anterior. Até porque seu reencontro só se dá devido ao registro da história do encontro anterior (o pequeno best seller de Jesse). Até porque eles são o filme, a ponto de forma e conteúdo se fundirem: a história contada é influenciada pela forma como fora contada: eles discutem se tiveram ou não uma relação sexual (tão importante naquele contexto quando a traição de Capitu), referenciando o fato de isso não ter ficado claro para os espectadores pelo filme anterior. Questões pendentes que interessam tanto aos dois quanto a nós (aqui não sabemos nada a mais que eles, descobrimos as coisas ao mesmo ritmo) são visitadas e revisitadas. Põe o papo em dia, falam dos planos, do que fizeram, e ficam cada vez mais perto, cada vez mais à vontade, cada vez mais com vontade, cada vez mais os mesmos daquele dia (quase inteiro) em Viena.

A felicidade recôndita de se saberem infelizes longe um do outro é intermitentemente revelada (as mulheres fingem, diz Celine, e ela mesmo finge se importar com a felicidade alternativa de Jesse, finge não se importar com a nova despedida porvir). Diante desse jogo, eu, de início, se fosse Ethan Hawke, teria dito já ao encontrá-la que a curiosidade que um pelo o outro nutriam suportaria a ascensão do espaço e que se extinguisse quando o acontecesse valeria a pena. Se primeiro foi tomar um lanche, depois foi descer do trem, e passar a tarde, que virou dia, noite… o tempo aumentou e eles o ocuparam, mas não gasosamente (ocupando o espaço dado), e sim solidamente (crescendo junto), mantendo a intensidade. Então era um medo o de acreditar no mérito do absurdo do encontro sem acreditar que o absurdo como elemento missionário. Porém os minutos passam, e eles não trocam telefone, nem e-mail, blog, Flickr, Twitter.

Eles têm suas vidas. Cada qual tem seu cônjuge: Jesse tem filho e esposa, Celine tem um namorado. Mas eles são coadjuvantes. Suas vidas separadas são coadjuvantes. O agente de Jesse, seu motorista, o corredor que os ultrapassa na praça, os vizinhos… coadjuvantes, coadjuvantes, coadjuvantes. Até a avó de Celine é coadjuvante (embora seja a menos coadjuvante (e por isso mesmo uma das poucas que aparece como imagem individual – à semelhança do tocador de cravo do primeiro filme)). Há somente os dois. Há, no máximo, Paris, mas Paris é uma extensão de Celine (uma metonímia ao contrário, a cidade representando sua habitante, a despeito de “”Oh it’s so French. It’s so cute.” Ugh! I hate that!”), a qual se vai revelando ao mesmo ritmo da cidade: à medida que Paris se descerra, Celine o faz no mesmo ritmo. Vê-se de fora, pelo viés de turista, de estrangeiro, até aproximar-se de sua faceta íntima, seus bairros, seus lares, suas gentes. A cidade de Paris enquanto Pasárgada de Jesse torna-se real. À medida que se aproxima de casa, Celine se abre mais e mais. Abertas as portas de seu apartamento. Celine abre-se.

E lá (ali) ela canta. Ela imita oficialmente a atitude de palco de Nina Simone após a ter imitado o filme inteiro.

Em vez do beijo desesperado (a caída de, ainda que inofensivas, ainda que pequenas, máscaras) à porta do trem no filme anterior, uma valsinha (mais leve, mais aliviada, mais tranqüila que os violinos que encerra o filme anterior).

A sensação agora não é o desespero. A sensação é o alívio.

Valsarão, definitivamente. Foi tacitamente decidido, definido, definitivamente.

Tanto pelo título, tanto pelo conceito do filme anterior, tanto pela perene ameaça do final vindouro, resistia-se. Mas Celine quebra a regra principal do projeto: “você vai perder o seu vôo”. Um pequeno zoom, close-up nele, que sabia. Ela sabia. Eles sabiam. Nós, no fundo, também.

Definitivamente, usada linhas acima, pode significar que define, mas pode significar algo que não mais se alterará.

Pode ser uma situação que ficou definida (e vai durar), pode ser uma situação que foi definida (foi decidida, vale para o momento). E do final, do depois do final, não sabemos.

E o final nos diz isso. Definitivamente.

Porquanto, por excelência, um filme de amor: de como ele inevitavelmente se instala, de como ele abrange uma combinação de acontecimentos e buscas (ou de todos os elementos) que nutrem a e nascem da sua contigüidade. Da fatalidade com que se consorcia.

De como ele, sempre sob uma aura ambígua, para exigir coragem, instala-se como anseio guia, tal como um anseio vital, de sobrevivência, e obriga a busca oprimindo infelicidade a seus componentes; em suma, de como dá um jeito de fazer com que seus envolvidos dêem um jeito.

Em suma, de como ele inevitavelmente não é evitável.

Au revoir, later

da graça das coisas

2008,abril30,quarta-feira às 5:18PM | Publicado em alto-ajuda, crônica | Deixe um comentário
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“A

coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?”

Este texto é creditado ao grande (tão grande quanto Buster Keaton) Charles Chaplin. Recebi por e-mail hoje com a indicação para passar, sob pena de azar, a 10 sortudos em potencial que infelizmente não serão condecoradas com a missão.

Muito poético o texto, claro. Todo devaneio é um pouco poético, até o padre voador é meio poético. E todo devaneio é permitido. Então longe, bem longe de mim criticar negativamente Carlitos – que no fundo Chaplin é Carlitos, tal como Clark é Superman e não o contrário – a despeito dos esforços dos roteiristas em deixá-lo mais humano.

A vida tem de ser como ela é mesmo. Assim mesmo, mesmo assim.

O melhor tem de parecer vir antes, para parecer que o melhor é agora, a fim de que quando o depois vir, o melhor pareça ter sido o depois, ou seja, o melhor sempre pareça ser parte do agora.

Assim se é feliz sempre – desde que se aja, reaja, desde que se tenha coragem – e ter coragem é usá-la.

Até porque tem a anedota aquela dos charutos (que eu prefiro traduzir para bombons, embora charutos também sejam bons): dois homens ganham caixas de bombons com diferentes bombons. O primeiro (ou segundo, tanto faz, mas apenas um deles – que se oporá ao outro) deixa o melhor para depois. O outro (o segundo etc) come os melhores primeiros. Donde que percebemos: um todo dia tinha seu melhor bombom; o outro, seu pior (ou o ruimruim). E tem também a história da seta de Zenão, pois eu tenho a impressão de que quem acha que a infância é melhor que a maturidade são os mesmos que acham que Michelangelo é arte e Duchamp não é.

O tempo às (ou muitas) vezes é incompreendido. Mas ele sabe o que faz com a gente – e ele mesmo é poético. A gente que às (ou muitas) vezes não sabe o que fazer com ele.

 

I ♥ BBB

2008,março26,quarta-feira às 11:55AM | Publicado em 2º caderno, crônica, diário, gente | 4 Comentários
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bbb8

Ou melhor, I ♥ final de BBB.

O ♥ não era p/ tanto. Mas eu gosto da final. Aceitei isso ontem. Quando apareceu a Pitty, deu até vontade de cair no clichê, falar mal dela, dos participantes, chamá-los medíocres , da manipulação (às vezes eu perco a paciência e penso que quem se deixa manipular pela TV merece ser manipulado) etc. Mas ontem, não sei se era o bom humor, mesmo os greatest hits da Pitty estavam divertidos, a despeito de suas verdades adolescentes à matrix de “pane no sistema”.

Ontem a fraqueza das personagens (concordo com o pessoal que ninguém em tese mereceria levar uma cifra de 7 dígitos assim, mas por outro lado, expor-se dessa maneira é preciso no mínimo coragem, ou um tipo de coragem, que seja, e muita boa sorte) privilegiou a final, a indecisão na decisão (que pode ser tudo armado como muitos dizem, assim como pode haver leptospirose nas latas de alumínio). Mas, no fim, gosto do rosto da Gyselle (com y e dois l) com uma cara de emburrada, triste e emocionada enquanto Bial a comparava com as feras, ao dizer que elas (e ela) só comem e dormem, e só não o fazem quando vão à caça – o que me fez lembrar que aquele rosto dos olhos negros e então entristecidos encabeça o mesmo corpo que dança incansável e furiosamente, um corpo belo, popularmente belo.

No último capítulo eles editam a história (real, de fato) que se passou e isso que me agrada. São recursos de narração os mais óbvios possíveis, de cinema despretensioso (no mal sentido) água com açúcar. Em verdade, os recursos de edição são os mesmos de uma colação de grau, com a diferença de que o material tem bem mais horas a serem editadas. E não tem de agradar família alguma. Só as felizes famílias regadas à pipoca após as aparições justamente de Juvenal Antena: aí valem as fofocas, barracos, corpões etc. E se na formatura eu me emociono ao mesmo tempo em que acho tudo meio brega, tenho a mesma sensação no BBB.

Lembro de quando o Rafael declarou-se para Mariana dizendo que não poderia a beijar pois estava com um problema no dente, ou ele sendo flagrado olhando para ela com candura depois de tanta promiscuidade (ele se aliviava individualmente sob os edredons), com sua voz em off dizendo o quanto gostava dela; ou o Dhomini dando uma de Romário na copa de 94 e ganhando o Brasil à base da marra; o nerd xaropão Tirso (que tornou-se adjetivo por uns tempos) desbancando um bonitão lá – é vida real empacotada, ou melhor, enlatada e artificializada, como uma lata de sopa de tomates Campbell.

Falando nisso, se o formato do programa submetesse-se ao seu conteúdo, aí seria moderno, e talvez por isso ultrapassado; mas ele é pós-moderno, consagra conceitos de tribalismo, superficialidade, caos, despretensão, igualdade de ofícios, falta de autoria. Trata a fama como magia. É a acomodação do que fora antecipado por Warhol (não se preocupem não irei mandar a dos 15 minutos) e por outros. Uma tribo de sonhos oficialmente assexuada, mas ordenada pela sensualidade, ratos de laboratório do esquemão George Orwell. E, no fim, paradoxalmente, seus atores são como poesias concretas, de forma e conteúdo convergidos; são como a eliminada Juliana, de uma beleza à qual não precisa se submergir, uma sedução menos de casa; é superficial da superficialidade da imagem, do rosto de Gyselle, que sorri, deixa de sorrir, até chora, mas sempre está a tentar ganhar 1 barão de barões.

Uma pequena tribo fútil, que só vê quem quer, e possui uma lógica própria que premia a casualidade (afinal muitos de nós se ficassem à vontade lá poderiam ser fenômenos nacionais, e vi tantos candidatos ótimos terem sido eliminados logo de início e outros pamonhas virarem lendas, até porque o BBB é feito de gentes comuns, tanto que é só comparar a Casa dos “Artistas”), ao mesmo tempo em que valoriza a reação mais que a técnica, que o talento, como numa Copa do Mundo. E como numa Copa do Mundo, as fórmulas se reformulam dentro dessa lógica própria, e certos desvios de sorte valem muito. O que enche o saco é o reflexo de uma popularidade chata, óbvia, que se vê na preferência do povo, especialmente quando se tem algum candidato favorito pessoal que não vence. Eu cheguei a esse ponto só uma vez: fui fã do Professor Aloprado. Àquela época eu acompanhei toda a parte final (TV aberta). Quando aparecia o Endemol Globo eu ficava até triste. Tanto que a edição posterior àquela, a do superestimado Alemão, eu abandonei. Donde só retornei na reta final dessa, mas sem a mesma assiduidade.

Agora, como uma coisa pode emburrecer, daí eu não sei. O Big Brother é um produto e como tal pode ser consumido como se queira: é como a coca (cola). Você pode ler Guimarães Rosa, ser mestre em xadrez (com o mesmo critério que faz de BBB um índice de superficialidade, dá para fazer de índices de certa erudição – tão clichês também) e assistir BBB. Xadrez também é um produto e pode não ter todo seu potencial utilizado. Evidente que João e o jogo milenar (para não repetir nomes) podem ser considerados abridores de mente por excelência, ao passo que o Reality Show (a fim de não reprisar títulos) pode confinar além de jovens sarados a mente dos mais bobinhos. Pode-se emburrecer com qualquer coisa. Assim como se pode se encantar com Rilke e João Cabral, com Décio Pignatari e tantos outros, eu gosto da poesia pop do Bial direcionada a dois nervosíssimos cidadãos sedentos por fama e dinheiro.

O Reality show joga limpo: eles estão ali para ficarem sumariamente milionários e todo mundo sabe, todo mundo aceita. Pior é quem ligava para dar 1 milhão para a Mara achando que estava fazendo uma boa ação, ô boa ação fácil. Mas que bom que ela pode ajudar a filha dela agora.

Mas não é p/ tanto (estou a me repetir hoje, em todos os níveis). Mesmo que pareça exagero o pessoal que passa o dia no Paper View e que trata cada paredão como reveillon, não é muito diferente de quem mergulha na obra e quer ler tudo que Balzac escreveu em detrimento de todo o resto. Estou me repetindo, mas só para afirmar que cada um faz o que quer.

Evidente que se a TV tivesse mais qualidade, manipular-se-iam as mentes para elas se não permitirem manipulação. E repito os parênteses lá de cima: quem se deixa manipular pela TV merece ser manipulado.

Só que a questão é essa: não dá p/ se exigir tanto. Como qualquer outra coisa que faz muito sucesso, o BBB gera ódio em muitos dos que não colaboram para tal sucesso. Eu mesmo tinha um anteprojeto de fazer um estêncil bbb6 no qual o 6 contaminava os b e virava um 666 – vi num livro de estênceis argentino uma idéia semelhante em relação à Xuxa (xxx, six, six, six, como dizem haver na música marquei um xis, um xis...).

E se hoje o Chaves del Ocho é clássico, é cult, o Big Brother Brasil o será nalguns anos.

E mesmo que seja um produto não da, mas para a burrice (quem se arrisca a definir burrice?), basta usar com moderação: uns instantes de “burrice” fazem bem, acalmam a cabeça.

Porém, no final do programa, eu enjoei um pouco mesmo, e hoje pela manhã recalculei o peso da exposição total na idéia de enviar um vídeo para a nona edição. Mas cogitei, afinal, eu sou brasileiro. E no fim (mas uma repetição – notem: BBB formato repetido, Campbell’s Soap, clichês… a repetição acabou tomando forma conceitual), foi só uma espiadinha (muito bagaça esse final, hein?).

Um bJoão e/ou um Grando abraço.

uma coisa mais leve e muitíssimo maior

2008,março24,segunda-feira às 11:49AM | Publicado em crônica, diário | Deixe um comentário
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A sexta santa foi calor. A noite foi daquelas noites que só nela é possível encarar a rua (tal como uma personagem masculina de Machado de Assis que preferia a noite ao dia, cujo conto a que pertencia não me recordo pois havia confundido com Miss Dollar, que li também em 2002, possivelmente), embora durante dia inteiro tenha sido pouco possível ficar em qualquer lugar (aí se inclui a casa) sem esquentar muito.

Ideal p/ aventuras noturnas. Eu imagino na praia, à qual este ano não fui. Sábado o mesmo: mormaço, noite tropical.

E comemorava-se nesta época Cristo morto. Porém nenhum silêncio.

O domingo em si, o dia da ressurreição, foi cinza.

Nenhum barulho.

Cristo está de volta. E volta a melancolia, a reflexão.

* * *

Ontem, fazendo o caminho POA-Canoas, presenciei o incêndio na fábrica de fertilizantes Yara, que segundo a minha mãe era de velas. A fumaça preta já alcançava muitos metros. Claro que deixarei bem claro que não é uma coisa boa incêndio, vai ter problema para muitas pessoas, embora graças a deus (que estava comemorando seu 1975º aniversário de ressurreição) não houve ferido algum, mas essa desgraça toda, poluição causada, isso tudo é horrível etc.

Mas a sensação era a de ver uma nuvem do mal de perto. Era de ver o poder do fogo.

E era fascinante:

uma coisa muito maior, muito mais leve e muito mais poderosa que nós, mexendo-se, no céu.

Tanto que uma porção (talvez até uma multidão) de curiosos aglomerou-se nos arredores do infortúnio.

Hoje faz uns 28ºC e está nublado. Passou por mim hoje no centro de Canoas um cara igual ao Shyamalan, ou ao menos igual (no sentido de “lembra”) a todos os outros descendentedes de indianos.

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