a 1ª pedra

2008,outubro28,terça-feira às 10:11AM | Publicado em crônica, hojes | 4 Comentários
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Eloá morreu. A culpa é da imprensa. A culpa é da polícia. A culpa é do culpado. A culpa é da Eloá. A culpa é do amor. Bruno Barreto disse que o caso de Lindemberg é parecido com o do ônibus 174. Sandro participou da chacina da candelária. A polícia participou da chacina da Candelária. A imprensa falou que a chacina da Candelária não é legal. Lindemberg ama Eloá. Sandro não amou. Luiz Eduardo Soares escreveu um livro (entre tantos outros) no livro uma coisa que mostra (entre tantas outras) o BOPE é cruel. José Padilha dirigiu um filme a partir do livro de Luiz. Capitão Nascimento para presidente. O BOPE é herói. José Padilha dirigiu o documentário ônibus 174. Um policial do BOPE matou sem querer a refém. O BOPE é vilão. Bruno Barreto pode ir ao Oscar com o filme 174 última parada. Bruno Barreto é herói. Bruno Barreto perdeu o Oscar em 97. Bruno perdeu o Oscar. José e Luiz pensaram o ônibus 174. Gabriel o Pensador fez uma música 175 nada especial. O policial errou o tiro. O Lindemberg perdeu a vida. O Lindemberg errou. O Sandro errou. A imprensa disse que eles erraram. A imprensa disse que Bruno perdeu o Oscar. A imprensa não disse que ela errou. 40 mil pessoas no enterro de Eloá. 1 pessoa no enterro de Sandro. Sandro morreu.

Bem, falando mais racionalmente (ou oficialmente, pois raciocínio da mesma forma e a irresistível comparação-clichê fôrma) sobre o assunto, fiz um comentário tão extenso que o poderia transformar em texto, mas como inventaram o link, vide o texto de João Paulo Lima ao qual o comentário seguinte se reporta, para eu registrar sem os palavrões o que fico falando mais ou menos para todo mundo quanto o assunto é este. E assim é bom porque já dá para se saber o processo que resultou naquele texto caixa 14pt lá em cima. Ei-lo:

Esta síntese de ficção e realidade seria uma tendência pós-moderna, de a vida real ser o espetáculo, dos 15 minutos de fama. Mas o que prudentemente chamaste atenção é para o fato da imprensa “ficcionar” a realidade, ou seja, forjar uma hiper-realidade, ainda que o real alterado seja o do mundo criminal, da notícia, o que exige muito mais responsabilidade (ou neste caso culpa) do que um produto cultural, como um reality show.

Porém eu repenso o papel de um terceiro elemento que agrega o seqüestro em si, que complementa o papel da polícia e da imprensa: nós, os espectadores, os que também contam a história.
Criticamos a imprensa, mas a visão que temos foi fornecida por ela. Claro que podemos filtrar a informação que recebemos, mas não podemos ter mais informações do que temos. Analisamos o caso da TV sem conhecer pessoalmente nenhum dos envolvidos e neste sentido colaboramos para dar a ficção desta realidade, porque ainda não possuímos o conhecimento desta realidade.
Há quase um consenso em dizer que houve erro da polícia e que o rapaz se alterou devido à presença da imprensa.

Sobre o que falou Bruno Barreto, há a teoria de Luiz Eduardo Soares, da invisibilidade dos meninos de rua, da qual ele fala no documentário de José Padilha. Segundo ele, o menino de rua quer ser visto, quer marcar sua existência no mundo, pelo qual passa despercebido (quando aponta a arma ele está a estender a mão para pedir ajuda). O caso do seqüestro pode ter sim suas semelhanças (e muito provavelmente tem), porém no universo de Lindemberg, dele para Eloá, para seus amigos, para o mundo todo ver; mas temos de lembrar que é um caso pessoal, posto que o caso do Sandro do ônibus 174 é o recorte de um caso genérico, baseado no estudo de um nicho (sub)social (perdoem-me os termos não técnicos): os meninos de rua. Mas o caso de Lindemberg é muito específico, não se pode classificá-lo ainda num nicho determinado, como se pôde no caso de Sandro (e isso somente após ir atrás das informações da vida do rapaz, de investigar uma possível origem de sua motivação – o filme de José Padilha citado antes é um belo estudo sobre isso).
O que quero dizer é que é cedo para falar e que temos apenas uma superfície, fornecida pela imprensa. A impressão que tenho é que fazemos análise sobre uma versão de história, desde o começo encaixamo-la no caso do rapaz-que-faz-uma-besteira-vira-um-show-e-gera-uma-tragédia-sem-querer, subestimando sua capacidade criminal e superestimando esta influência da imprensa, e tudo isso sem ainda conhecer a história mais a fundo.
Com a ação policial o buraco é ainda mais embaixo, pois muito da técnica que aprendemos para criticar a técnica deles vem novamente da imprensa, de entrevistas de especialistas, opiniões de autoridades no assunto etc. Mas, a não ser raríssimas exceções de alguns que devem ter algum conhecimento tático sobre seqüestros, o conhecimento destas opiniões não nos habilita a fazer análises próprias. Somos ainda leigos. Eu posso dizer que tal fulano especialista nisso e naquilo disse que eles erraram, mas eu não tenho condições de afirmar o mesmo.

Claro que teu texto analisa o caso também como um exemplo, como ilustração (mas não somente isso) desta influência da imprensa, o que é muito bem observado. E sutilmente fala da fabricação (ou “potencialização”) de criminosos por parte dela e da polícia, outro ponto importantíssimo. “A responsabilidade da mídia sensacionalista precisa ser discutida e apurada”, como disseste, bem como a hipótese da polícia ter cedido à pressão da mídia (quando talvez nem devesse deixá-la se envolver tanto, dar tanta atenção). Assim é importantíssima não tanto a conclusão (porque se tem falado dela por aí), mas a análise (e o recurso de comparação com a tragédia) que usaste para se chegar a ela. Mas creio que temos de ter cuidado ainda com a simplificação do fato (não é o caso do teu texto, mas sim do que ele pode gerar nos seus leitores) para não sermos também vítimas desta “recriação do real”.

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4 Comentários »

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  1. Caro chará em João,

    primeiramente agradeço o belo comentário ao meu texto. Fico feliz ao receber a crítica que julgo pertinente no que diz respeito ao risco do meu texto reproduzir aquilo que visa justamente criticar. Falta de análise propriamente sociológica, como bem dito (não existe estudo sobre caso como no filme do padilha), o caso de Lindemberg é apenas “caso” sem valor de tipologia que represente algo mais genérico.

    Dito isso, gostaria de contextualizar minha opinião de cidadão e não apenas de sociólogo. Claro, a sociologia media minha maneira de expressar porque fui formado nela. Fiz o texto para ser publicado em meu blogue pessoal onde, apesar de falar em sociologia, ela não aparece nele como disciplina especializada. Mais uma vez concordo rigorosamente com teu comentário: não sou perito e minhas opiniões são fruto das coisas vistas e lidas na imprensa televisual e escrita. Mas acho que podemos e devemos numa democracia, mesmo enquanto leigos, expressar nossas avaliações sobre fatos ocorridos, nem que seja para depois ter que rever tudo o que foi dito em função de outros conhecimentos a serem levados em consideração. Não digo isso para eliminar a crítica principal do seu comentário, que julgo perninente e vaiosa para o entendimento de meu texto, mas para que possamos não nos render a esse argumento, também arriscado, de que só os especialistas teriam opiniões a serem respeitadas sobre coisas polêmicas. Para mim existe uma parte desse debate que extrapola as culpas de Lidemberg (independente do caso dele se revelar psico-patológico ou não)… Como espectador eu vi a cobertura televisiva e nela a preocupação da polícia com o que e como fazer as coisas para TV. Isso, mais do que o resto, creio, é importante para o debate público. Acho essa que é a idéia que permeia meu texto e cujo seu comentário contempla. Mais uma vez obrigado,

    João Paulo.

  2. João,

    Consagro o poder construtor do debate após estas tuas considerações. Porque em verdade as questões complementaram-se. Ou talvez adicionaram coisas uma a outra, por não precisarem de um complemento, e assim se adequaram. Muito pertinente esta observação do risco de dar somente aos especialistas a opinião acerca de suas especialidades. A opinião (avaliação, constatação etc) de leigos, desde que admitidas como tal (honestas, portanto), é necessária, na medida em que a inteligência (num sentido de tratamento de dados fornecidos) não necessita de uma autenticação formal. É um ganho do nosso tempo esta possibilidade, este espaço (que é compreendido pela palavra “democracia” que usaste, considerando a conotação mais abrangente dela que penso deve ter sido a usada por ti) para todos, para a opinião de todos. Antes de leigos, somos humanos, e assim percebemos o mundo à nossa volta. E, até excedendo um pouco o limite da análise racional, precisamos até de uma certa confiança na intuição: o que se percebe deve ser dito, não há nada a perder e muito a ganhar e, novamente reportando-me à tua resposta: pode ser mudado, se for o caso. A liberdade então vem antes de tudo. Um princípio. Até porque este receio em relação a dar opiniões gera um engessamento (o risco ao qual te referiste) que prenderia a mim, sendo que falo de tantos assuntos dos quais não tenho uma especialização formal (cabe destacar aqui que, em Sociologia, eu sou leigo, tu não, e de certa forma já se subentende que o texto tem uma base socióloga mas é também uma opinião pessoal, e isso, corroborado pelo teu comentário, isenta o teor de oposição à propagação da idéia a partir somente do captado na imprensa). Até porque a desvalorização dos fatos apresentados (da superfície) só seria resolvida por uma participação utópica em todos os acontecimentos, que se consumiria a si mesma se continuasse a exigir o mesmo “aprofundamento” que descartaria a superfície como fonte genuína de dados.
    Mas o principal fora compreendido por ti e o será pelos leitores que se prenderem ao texto e não aos clichês que o episódio já gerou: que a idéia foi, usando justamente deste espaço dos novos tempos, complementar teu texto sem lograr alterá-lo, agregar ao teu texto esta relatividade, este mínimo de pé atrás para atentar a todos do que está em jogo e, como dissera, preocupando-me com a interpretação do texto e não com ele em si. Por isso mais uma adição que um complemento. E o título do texto é uma interrogação, e isso não deixa de ser um convite.

    (p.s.: qual o endereço do teu blog? O URL que colocaste no comentário só diz que é blogspot e a busca fica um pouco prejudicada devido a um político chamado João Paulo Lima Silva. Eu até consigo achar, mas acho interessante tu divulgares até para os outros leitores que se interessarem.)

    Um abraço, agradeço também,

    João.

  3. Opa João,

    Nada a acrescentar ao que disse. Deixo o link do meu blogue:http//www.ooxymore.blogspot.com

    Abraço de João pra João.

  4. […] o incêndio na fábrica de fertilizantes Yara, Habacuc e o assassinato do cão por causa da arte, Eloá e Lindemberg, o aniversário de 1 ano deste site e fique à vontade para ver o resto também, podendo inclusive […]


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