sentir

200814JulhoSegunda-feira at 8:11 pm | In crônica | No Comments
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Shyamalan, além de transformar árvore nalguma coisa ameaçadora, um professor secundário de tênis brancos em herói, transformou uma equação exponencial em terror.

E tendo saído do cinema acostumado ao medo, reagi com ele ao que seria de candura, de desânimo da alegria.

Pois foi como terror com trilha sonora aguda que rememorei das penas que me deram ontem, em dois momentos isolados da tela escura da televisão para folgar do sol bonito demais do dia claro.

Rapidamente:

Na TVE, o caranguejo pobre movia lentamente as patas e tirava uma formiga, depois voltava e tirava outra, enquanto neste hiato eram dezenas ou dezenas de milhares as que, após descobrirem um ponto fraco entre suas juntas, nas quais a carapaça não o salvava, na alcunha de soldadas lhe raptavam os membros sem lhe raptar a vida ainda.

No Faustão, num quadro de humor, um humorista tinha de atingir um índice num aparelho virtual ao qual chamavam risômetro, e os segundos foram se indo, o índice não atingido, ele gaguejou e pediu desculpa.

Usando da bizarrice e dos gêneros como arma para ambigüidade, mergulhamos numa experiência áudio-visual sensorial (ecos do domingo passado) de arrebatamento, seja pelo terror, seja pela esperança. E embora ríramos, embora nos comovêramos, pagáramos e batemos palmas também para sentirmos medo. Tudo é do espetáculo (no melhor sentido da palavra, no sentido de aplaudir em pé num teatro).

Mas do medo extrai tudo contíguo a ele: assim a coragem, a imperfeição. Nas tais transformações que falava, Manoj Nelliattu faz com que as esperança e pessimismo brotem da mesma terra.

Então sentir medo é bonito.

E de ver não ser o que se é por importância tanta a alguma coisa – gaguejar, ficar nervoso – como de ver algo só e vivo acompanhar a própria morte e mesmo assim tenta escapar, numa certa inocência, numa certeira impotência.

E por coisas assim a piedade normal e estranhamente nos repleta o espírito.

E tanto é espetáculo que a imagem isoladamente de um caranguejo submetido a um ataque coletivo de formigas é de fluidez tão harmônica que bela, se nos despirmos da amizade que fazemos com o caranguejo.

Então se a apego inútil enfeie a música do espetáculo, talvez seja um mal este cuidado, pois o mundo tem de ir para frente e aos vencedores as batatas.

E talvez assim se encha o peito para que dê alívio a esta pena que se dá, as notas altas de suspense, e o coração precisa ser mimado, sentir-se útil, quando o resto todo sabe que aquilo é assim mesmo.

Mas deixemos a selvageria aos animais.

Aplaudamos também os que fracassam.

Que no fim são espetáculos todos. São nomes (fracasso e sucesso, medo e coragem etc) que a gente fica dando. Que a gente fica girando a mesma moeda. O coração só se enche e se esvazia, e algumas coisas aceleram, desaceleram ou impedem este processo.

Bonito é sentir.

do lado de dentro do filme

200828FevereiroQuinta-feira at 10:22 pm | In alto-ajuda, crônica, filosofia | 6 Comments
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S

e eu passar e ver um incêndio (ou mesmo ver o mesmo na televisão, o que seria ligeiramente mais provável) e descobrir que tem um casal no último andar (tipo o 6º, nada muito exagerado) eu diria, ou gritaria, ou pensaria (o que é ligeiramente mais provável) “lança a criança para o bombeiro!”, como aliás aconteceu (e foi noticiado, por isso que eu sei que aconteceu, não foi algo perto da minha casa) dia desses (e vejam vocês, foi noticiado - a coisa é rara).

Eu teria feito o mesmo.Na teoria, mas se eu tivesse lá ia ser ruim de eu defenestrar um filho. Imagina olhar a carinha dele. Talvez pulasse eu e quando chegasse lá embaixo tocava ele para cima p/ algum bombeiro pegar, ou mirava um bombeiro especificamente. Ou o seguraria para cima durante a queda a fim de amortecer durante o choque.

A paixão da vida de alguém (conhecido como amor da sua vida) casar-se-á com outro. O outro, ou seja, o que não é o outro, o original, o verdadeiro amor, entra na igreja e “comenta” de modo muito influente os dizeres “se alguém tiver alguma coisa contra esse matrimônio que fala agora ou cala-se para sempre”. Você, assistindo, fala “é isso!” (ou “yes”, se você for americano, ou metido a americano, ou até mesmo idiota).

Eu teria feito o mesmo (se o roteiro da novela me orientasse a isso).Pois imagine a mesma situação. Na vida real, esqueci de dizer. É brabo de alguém fazer isso, deixar chegar a esse ponto e esquecer de desistir no último minuto. Coragem é (inclusive eu farei uma série com isso, do tipo das figurinhas “amar é”…) esquecer de desistir.

Coragem é cumprir um certo previsível, um previsível simples, até óbvio. A coragem é óbvia, mas não é fácil.

Pode pôr a música-tema da abertura de Irmãos Coragem (irmãos, é preciso coragem…) na vitrola que lá vai mais um exemplo, aliás, um lema para mim (sim, senhoras e senhores, eis uma máxima minha):

coragem é viver como se estivesse no lado de dentro do filme.

saudade que se sente de tudo que ainda não se viu

200815FevereiroSexta-Feira at 2:32 am | In alto-ajuda, crônica, tempo | 7 Comments
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O Patropi diz para o profº Raimundo “eu vou começar a piada pelo fim”. Ele –menininho, cabeçudinho… joelhinho grosso, barrigudinho, perna fina… quem? Quem? Ele. Raimundo Nonato! – concorda, ao que se segue um silêncio. Então o Patropi (que era também o Fofão) diz “estou esperando o sr. rir, pois a piada é muito engraçada”.Imagine (geralmente estas 7 letras predispõe orientações substancialmente mais amigáveis, tais como all the people living life in peace…) perder tudo. Imagine não lembrar de nada, nem de ninguém. Perder tudo: as anotações, as memórias, os amores e, por fim, tudo mesmo, o tudo propriamente dito.

Nós (não os homens, nem os que mantêm blogs, tampouco os brasileiros, a nós todos eu me refiro, nós, os seres humanos, portanto) temos esta ciência, de que tudo acaba. Essa noção às vezes emerge do conjunto de coisas que soubemos o tempo todo e não pensamos muito ou o processo contrário, a gente submerge nela.

Como nos sonhos quando passados são agregados à nossa memória onírica, a qual toma status de memória real durante o sonho, pois enquanto sonhamos o sonho é nossa realidade, de tal forma que é como se aquele passado estivesse sempre ali, como se realmente tivéssemos vivido aquilo e isso nos é abruptamente tomado quando despertamos (quando é pesadelo é bom, não? “Ai, que alívio…”).

Saudade de tudo.

Pode parecer um post adolescente parafrasear no título mais ou menos Renato Manfredini Júnior, mas a Legião é realmente emocionante e Índios é realmente muito bonita. Mas não é disso que falarei.Há a falta que fará tudo o que não será realizado (quantos aí não vão ser jogadores de futebol, quantas não vão ser bailarinas, ou quantos não vão ser cirurgiões renomados ou mesmo renomados, como queriam ser quando ainda não tinham a oportunidade de ser?). E o pesinho de chumbo de que o que se poderia ter sido feito, poder-se-ia ter feito? Saudades. Só que em vez da foto do ausente na mão, a ausência é do que não se fez e não há mais tempo a fazer. É uma ausência desde sempre.

É a presença da ausência e não a ausência da presença.

Eu sonhei assim: eu estava na minha casa, no meu quarto, eu era eu, ou seja, tudo como é, daí eu achei uma gaveta cheia de objetos guardados, coisas pessoais, cartas, lenços, fotos, coisas escritas e desenhos meus, e aquilo era (no sonho, e na hora, portanto) parte de mim. Quando despertei, dei-me conta de que aquilo tudo não existia.

Uma gaveta vazia, que poderia ter sido enchida. E há uma dessas na gente, limpinha. Ou várias, tipo um arquivo, com chaves e tudo, organizado, firme, com fichas para separar as coisas e… vazio.

Poderia ser remorso ou angústia, mas não. É saudade. A saudade das coisas que acabam porque acabam, ou que não foram porque não foram. Doem mais como barco que descrevendo um arco discretamente evita o cais do que uma fisgada no membro perdido, esta lembrada por Layla Lauar ao mencionar a belíssima composição de seu admirado Francisco Buarque. Não é uma saudade urgente. Para esta, a cura talvez é o esquecimento. Para a outra, o esquecimento – a extinção – é a causa.

Saudade de nada.

Saudade do nada que não necessariamente deveria ter sido nada.Pode ser exagero meu (exagero eu?). Até porque eu tenho saturno na casa 8, que me confere um medo das mortes, e a idéia de que as coisas acabam me angustia (eu ia escrever “podem acabar”, mas não, as coisas invariavelmente acabam). E ainda por cima eu tenho bloqueio de elementos terra (estou no mapa astral natal ainda e não noutro tipo de mapa, como o cartográfico) e muitas posições em sagitário, que me dão uma certa síndrome de Peter Pan (mas não é nada doentio, não é síndrome de síndrome mesmo, é só um jeito de designar).

O Guga (Gustavo Kuerten, ex-número 1 do mundo, tri campeão Roland Garros etc) chorou anteontem (ou um dia antes disso), porque percebeu o fim.

Quando uma coisa acaba é como tomar um murro, mas saber que tudo acabará é como saber que é impossível vencer a briga.

Quando se faz algo e se arrepende, é como olhar para uma caixa e não gostar dela. Mas quando não se faz e se arrepende, é como olhar um monte de dinheiro que não foi usado, ou sementes não plantadas para ser mais clássico. Ou algo muito (ou mais ou menos) parecido com isso.

Mas não foi à toa que o (xará!) João Guimarães Rosa escreveu a frase a vida parece que vai, mas vem vindo e ela fora citada justamente ontem por um repórter que infelizmente não sei o nome ainda que fazia uma participação semelhante às do Arnaldo Jabor no JN só que num jornal do Sistema Brasileiro de Televisão até então inédito para mim, lá pelas tantas da noite (quiçá madrugada), justamente na hora em que eu quis dar um minuto para esta saudade toda e fui zapear a televisão na esperança da luz azul me desafogar um pouco da submersão nessa verdade. Obrigado azulada luz, bola p/ frente (luz-a-zul, notaram?).

Acabar é a arma da vida para que a vivamos verdadeiramente.

E se a vida vem vindo, não se trata de nós a deixarmos para trás, mas sim de ela nos encontrar.

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